Um novo culto no lar

Carlos Malab traz sua coluna para o Cidade Conecta com escritos do livro "Era uma vez para sempre".

Carlos Malab | 04/10/2021

O  fim da tarde de domingo transcorria tranquilo na casa de Vovó Angel. As crianças preparavam o material escolar da semana e revisavam as lições para as aulas de segunda-feira. Pedrinho e Cris brincavam com o afoito cachorrinho Dimba.

Vovó Angel e Paula, no entanto, preparavam-se para sair. A menina estava muito animada, pois participaria do estabelecimento de um novo “culto no lar”. 

Vovó Angel havia sido convidada a introduzir o “culto no lar” na casa de Dona Ana e convidara Paula para acompanhá-la e ajudá-la na tarefa.

Dona Ana era casada com o Sr. Jorge. O casal tinha dois filhos: Gabriela, de nove anos, e Francisco, de oito.

Dona Ana estava estudando o Espiritismo há algum tempo e desejava seguir o exemplo de Vovó Angel, implantando um culto do Evangelho em sua casa. No entanto, não sabia como fazê-lo e convidara a vizinha para ensiná-la.

– Por que o culto do Evangelho no lar não é feito em todas as casas, Vovó Angel? – perguntou Paula, no caminho.

– Você tocou num assunto muito importante! – disse Vovó Angel, satisfeita com a pergunta. – Ele não é feito, Paulinha, porque a maioria dos lares não despertou ainda para o valor da formação e da exemplificação moral em casa. O culto é uma oportunidade maravilhosa para o estudo do Evangelho de Jesus e para harmonizar o ambiente onde vivemos. Com ele, ensejamos aos amigos espirituais que nos amparem. Cada lar onde ele se estabelece torna-se um ponto de luz na Terra!

Paula olhou intrigada para Vovó Angel, pois convivia com a prece e com comentários diários sobre o assunto. Aquilo lhe parecia tão natural que não entendia como em outros lares não se fazia o mesmo.

As duas seguiam a pé para a casa de Dona Ana, levando com elas um exemplar de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. (1)

Chegando lá, foram recebidas com muito carinho por todos e, após se acomodarem em torno da mesa principal da casa, Vovó Angel explicou:

– O culto do Evangelho no lar é uma bênção de Deus sobre a nossa casa, pois nos familiariza com os ensinos do Cristo e exige de nós atenção e disciplina. Sugerimos que seja feito com simplicidade e clareza, sendo iniciado e finalizado com uma prece. Para a sua realização, deve ser escolhido o melhor dia e horário para a família, ocorrendo, pelo menos, uma vez por semana.
Vovó Angel pediu que Paula proferisse a prece de abertura daquele primeiro culto no lar de Dona Ana. Depois, recorrendo ao O Evangelho Segundo o Espiritismo, encontrou no Capítulo XIX a lição “A fé transporta montanhas”. Após a leitura dos itens 1 a 5, Vovó Angel abriu a palavra para comentários e perguntas.

– Senhora Angel, – perguntou o menino Francisco – como é que podemos “transportar montanhas”?

Ao que Vovó Angel respondeu com presteza e carinho:

– Francisco, meu querido, o que Jesus quis nos dizer é que se temos fé conseguimos retirar todos os obstáculos do nosso caminho, mesmo aqueles que consideramos impossíveis. Antes de conseguirmos qualquer coisa, temos que acreditar em nós mesmos para alcançar o que queremos. Os espíritos nos esclarecem que a fé é a mãe da esperança e da caridade.

Dona Ana e o Sr. Jorge mantiveram-se em silêncio, mas podia-se perceber a vontade deles de participar e o grande respeito e consideração para com as explicações de Vovó Angel. Sendo assim, o Sr. Jorge pediu a palavra, comentando, entusiasmado:

– O Sr. Rochedo, dirigente da reunião espírita, da qual participamos, sempre nos afirma que a fé religiosa não se impõe. Ela é desenvolvida pelas pessoas conforme os seus valores interiores. Ele sempre lembra Allan Kardec na afirmativa: “Fé inabalável só é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da humanidade”. (2)

 – Boa lembrança, Sr. Jorge! – confirmou Vovó Angel.

– Angel, – perguntou Dona Ana – e como no mundo espiritual se reúnem as pessoas das várias crenças religiosas?

Olhando para cada um dos presentes, a nobre senhora respondeu:

– No mundo espiritual, nos reunimos pelas nossas afinidades! Por isso continuamos a contar, até certo grau de evolução espiritual, com agremiações religiosas, como na Terra. O que importa realmente é como colocamos em prática os nossos sentimentos de fraternidade e de amor ao próximo!

Querendo incentivar a participação de Paula e de Gabriela, Vovó Angel pediu que elas citassem algum fato de suas vidas no qual exercitaram a fé em Deus.

– Quando minha professora de Português ficou muito doente, todos nós oramos e pedimos a Deus que a ajudasse. A diretora da escola pediu que tivéssemos fé, que ela ia melhorar. Dois meses depois, ela voltou a nos dar aulas e ficamos muito felizes! – lembrou-se Gabriela.

– Eu tenho fé de que onde estiverem, no mundo espiritual, meus pais estão me ajudando. – afirmou Paula.

– Muito bem, meninas! – retornou Vovó Angel. – Ter fé é uma necessidade que todos nós temos e estamos sempre envolvidos na sua realização.

Dona Ana olhou de forma especial para as crianças e falou, emocionada:

– A fé ajuda a superar as dificuldades. Muitas vezes, em nossas vidas, enfrentamos momentos nos quais pensamos que tudo está perdido e que não há saída. Nessas horas é importante fazer a nossa parte, não abandonando a vontade de lutar! Temos que ter fé em Deus, pois Ele sempre nos ampara!!!

Vovó Angel olhou para o relógio.

Como já haviam despendido um bom tempo no culto, afirmou para Dona Ana:

– Ana, já está na hora de terminarmos este primeiro culto em seu lar. Gostaria de parabenizar a você e a toda família pela iniciativa. Precisamos sempre estabelecer em nossos lares um refúgio espiritual seguro, com paz e harmonia! O culto do Evangelho de Jesus é um grande instrumento para isso. Gostaria que você fizesse a prece final, mas antes peço-lhe que pegue uma jarra com água e seis copos, e coloque-os sobre a mesa. Vamos pedir que os amigos espirituais fluidifiquem a água, colocando nela as substâncias espirituais de que necessitamos para o nosso fortalecimento físico e espiritual.

Feito isso, Dona Ana assentou-se novamente e proferiu a seguinte prece:
– Senhor Jesus, nestes instantes lembramos de ti com muito carinho, agradecendo por estes momentos de paz e alegria. Agradecemos a presença de teus mensageiros de luz, de Angel e Paula em nosso lar. Pedimos, Senhor, o teu amparo para todos nós aqui presentes e que nesta semana que se inicia possamos pôr em prática os teus ensinamentos. Fortaleça-nos, Senhor, e a este lar, abençoando as águas deste ambiente para que elas possam trazer o reconforto e o auxílio ao nosso corpo material e espiritual. Que assim seja.

Após as despedidas, Vovó Angel e Paula voltaram para casa. No caminho, foram comentando sobre a felicidade de terem iniciado mais um culto do Evangelho no lar, contribuindo para a difusão da mensagem do Filho de Deus.
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(1) Nota do médium: O Evangelho Segundo o Espiritismo é o terceiro livro da chamada codificação kardequiana, lançado em Paris, em 1864.

(2) Nota do médium: a referida citação encontra-se no livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XIX, item 7, 125. ed.,  FEB, Rio de Janeiro, 2006.
Fonte: MALAB, Carlos Henrique da Silva. Era uma vez para sempre. Pelo espírito Blandina. Belo Horizonte: Vinha de Luz Editora, 2007. p. 51-58.

Ilustração: acervo iconográfico da Vinha de Luz Editora da Casa de Chico Xavier de Pedro Leopoldo.

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