Tudo nosso: como a comercialização de itens usados vai definir o futuro da moda

Segmento de second hand ganha força também em BH e prevê um futuro diferente para o mercado de luxo.

Tatiana Andrade | 03/09/2021

O mercado second hand – que permite aos clientes comprar e vender todos os tipos de roupas, acessórios e peças de decoração usados – têm crescido em popularidade e mercado. Brechós e bazares já existem há muito tempo, é claro. A diferença é que o termo “reaproveitar” finalmente está fazendo parte do vocabulário convencional e será um dos maiores fenômenos da década, seja na forma de compras vintage, upcycling ou bazares.

Os motivadores são múltiplos: o custo crescente de novas peças, o custo ambiental e humano do fast fashion, agora amplamente reconhecido (até mesmo pelas próprias empresas de fast fashion) e uma nova geração de consumidores que encontra satisfação criativa e política em consumir o que já foi de outra pessoa.

Não é por acaso que o Repassa, maior brechó on-line do Brasil, tem milhares de usuários em todo o País e acaba de inaugurar seu primeiro ponto de coleta física no Boulevard Shopping. Lá, os clientes podem adiantar uma parte do processo de vendas que seria feito on-line: os clientes entregam em uma sacola (chamada “Sacola Do Bem”) todas as roupas que não desejam mais usar. Uma curadoria especial então seleciona os itens adequados para revenda, fotografa-os e lista-os no site. Assim que um deles é vendido, o cliente recebe uma porcentagem da venda em dinheiro, crédito de compras ou pode doar o valor para uma das vinte ONGs parceiras do projeto.

A startup, fundada em 2015 pelo empresário Tadeu Almeida se orgulha em dizer que já economizou mais de 553 milhões de litros de água, evitou que 2,4 toneladas de CO2 fossem emitidas e reduziu 13 milhões de kW/h de energia.

COMPRAS EM OUTRO ARMÁRIO

Outra razão para o repentino crescimento e interesse por produtos de segunda mão é que muitos consumidores de luxo parecem também estar interessados em bens usados, enquanto outros resolveram adentrar o mercado de revenda como fornecedores, limpando seus guarda-roupas para financiar novas compras, ou – talvez o mais importante – abraçar o consumo sustentável.

Embora o second hand, represente, atualmente, menos de 10% do mercado total de luxo, a revenda é talvez a tendência mais importante que está remodelando o setor. Com os consumidores passando muito mais tempo em casa no ano passado e voltando-se para o e-commerce de luxo em números recordes, o mercado de revenda está longe de ser moda passageira.

Fundada há nove anos por Bruna Soares, Luiza e Nathalia Faria, Júlia Salvador e Raquel Mattar, a mineira Nobz promete ser uma das maiores plataformas on-line de produtos de luxo autenticados e consignados, e conta com a Gucci, Cartier e Hermès entre suas marcas mais vendidas.

A empresa diz estar se beneficiando da crescente aceitação da compra de bens usados e do aumento das vendas pela internet de bens de luxo. “Consumir resale vai muito além de tendência, é um estilo de vida que a geração Z trouxe e que não tem como voltar atrás. Não há como dar ré na evolução de um estilo de consumo que tem como premissa o bem estar ambiental e a economia circular. Consumir resale será o padrão daqui a 10 anos e vamos presenciar essa mudança”, contou a CEO do empreendimento, Bruna Soares.

A Nobz conquistou um nicho lucrativo ao investir na contratação dos serviços da Real Authentication e da Entrupy, empresas americanas certificadoras de autenticidade de produtos de luxo. O objetivo é tranquilizar os compradores preocupados com as falsificações à medida que o mercado paralelo desses itens só cresce.

A empresa, que também conta com base operacional em São Paulo, realiza serviço de personal stylist para alguns vendedores, prometendo ajuda na separação dos itens que não estão mais alinhados com o visual do cliente e os direcionando para a plataforma. “É essa seriedade que dá credibilidade e fideliza nossos clientes e fornecedores de mercadorias”, orgulha-se Bruna.

Vale o investimento

Na vanguarda da mudança dos hábitos de consumo, a fundadora de outra loja second hand Du Acervo, Bárbara Porto fala com propriedade dos motivos que estão levando cada vez mais consumidores a optar por roupas e acessórios de luxo usados.

“Entre as inúmeras lojas que oferecem roupas da moda por muito menos, estamos condicionados a pensar que nossas roupas devem ser baratas e, de certa forma, descartáveis. Peças de qualidade, embora geralmente mais caras, valem o investimento”, defende. “A roupa de qualidade, embora mais cara, é mais bem fabricada. Dos tecidos sofisticados que duram mais até as costuras, esse tipo de roupa é projetada para durar”, complementa.

Há seis anos à frente da Du Acervo, Bárbara fez do seu espaço físico uma referência para os compradores em busca de produtos exclusivos com valores atrativos. Novas mercadorias são adicionadas ao portfólio da loja toda semana, portanto, sempre há uma nova safra de grandes descobertas que ostentam nome e sobrenome requintado como Prada, Chanel, Valentino, Mixed, Cris Barros e Adriana Degreas. “Tenho clientes que vêm aqui toda semana para conferir as novidades, como em uma loja convencional”, revela.

Apesar de manter o e-commerce da Du Acervo bem abastecido, a empresária acha que vale a pena ir até a loja, principalmente quando se trata de produtos second hand. “Uma das maiores vantagens das lojas físicas é a capacidade dos consumidores de inspecionar os produtos antes de comprá-los. Ter uma ideia do material, verificar a qualidade e testar o produto antes de se comprometer com ele é uma maneira infalível de evitar surpresas”, reforça. Mais recentemente Barbara ampliou seu portfólio de produtos, incluindo peças de decoração e mobiliário na Du Acervo Home.

RESALE DE MÓVEIS

Fundada pelas arquitetas Renata Resende e Elisa Vianna, a It Home também aposta na curadoria e resale de móveis de alta qualidade. Depois de uma temporada morando fora, a dupla busca fortalecer localmente este conceito tão difundido em outros lugares do mundo.

“Trata-se de valorizar a cultura sustentável de uma forma inteligente, utilizando um móvel pre-owned mas de uma nova forma em novo ambiente.” Cada peça é escolhida a dedo e passa pela aprovação das arquitetas. Dentre os últimos garimpos estiveram uma poltrona Mole de Sergio Rodrigues e obras de arte de Eduardo Sued e Fernando Lucchesi, comprovando que peças exclusivas de arte e design também tem seu lugar nesse mercado.

O estigma de comprar itens de segunda mão está gradualmente diminuindo. Após anos evitando produtos usados, Fabiana Corrêa se viu atraída de volta aos brechós. Parte do que provocou seu retorno foi ver sua irmã vendendo online produtos de marca de segunda mão. Em vez de associar a revenda a objetos usados de outras pessoas, ela agora podia ver isso como uma forma de construir o guarda-roupa dos seus sonhos.

Além disso, Fabiana começou a refletir sobre seus sentimentos conflitantes em relação às roupas que não eram novas. “Eu estava vendo um propósito maior em muitas coisas na minha vida, e a moda era uma delas”, explica ela.

Entender melhor os compradores como Fabiana é tão importante quanto reconhecer que eles podem evoluir – de compradores ocasionais da marca a fiéis consumidores. Só o tempo dirá o espaço que Repassa, Nobz, Du Acervo e It Home conquistarão para si nesse mercado em rápido crescimento. A certeza é que o futuro da moda pode ser moldado por esses tipos de negócios que são construídos localmente e a partir de comunidades autênticas. Empresários que desenvolvem seus negócios para serem sustentáveis em cada aspecto de e financeiramente justos.

O resultado final para todos é que o mercado de segunda mão veio para ficar. Para preencher seus guarda-roupas de forma sustentável com itens exclusivos e de valor acessível – os consumidores estão orgulhosamente comprando de segunda mão. Eles continuarão a fazê-lo nos próximos anos. Para quem capitalizar essa tendência, as recompensas são inúmeras.

Foto: Divulgação JC/ Nobz

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