Transporte Coletivo não aumenta casos da Covid-19, apontam estudos

Segundo especialistas, se o setor fosse o grande vetor de transmissão, seus colaboradores deveriam estar entre os grupos que mais se contaminam.

Da Redação | 26/03/2021

Desde o início da pandemia, muitas especulações e conclusões precipitadas apontavam o transporte coletivo como o principal vetor de contaminação pelo novo coronavírus. Uma notícia que tem sido pautada de forma insistente nos veículos de comunicação e de redes sociais, e que tem questionado, de forma veemente, por que não se pode fazer “aglomeração” em casa, em festas privadas ou clandestinas, e no “transporte coletivo” das cidades pode.

Segundo o Especialista em Marketing de Transportes e Mobilidade Urbana, Roberto Sganzerla, a resposta é porque não são a mesma coisa. “Por mais que esta afirmação possa parecer contrária ao senso comum, e fazer afirmações baseadas apenas no senso comum e não em estudos qualificados, pelos menos referente a esta pandemia, pode ter alta margem de erro”, explica.

O especialista pontua que o problema se agrava quando os veículos de imprensa dão voz a tais afirmações, ao invés de respaldarem seu ponto de vista em estudos científicos e trabalhos acadêmicos confiáveis realizados em diversos centros educacionais pelo mundo, inclusive no Brasil, que tratam do assunto. “A opinião pelo senso comum, sempre é mais fácil do que a pesquisa e o estudo”, afirma.

Recentemente, um levantamento realizado pela Prefeitura de São Paulo em parceria com a USP (Universidade de São Paulo), e apresentado em fevereiro de 2021, sobre o risco de pegar a covid-19 na cidade de São Paulo, chegou a uma outra constatação.

Veja: entre os que saem para atividades não essenciais, como lazer, bares e restaurantes, a taxa de prevalência é de 19,2% (sem restrição alguma); saindo para trabalhar ou para outras atividades essenciais, seja de carro e transporte público (ônibus, trens e metrô), a taxa de prevalência é de 13,6%; ficar em casa ainda é mais seguro, mas não muito mais do que em relação a quem trabalha: a prevalência é de 11,4%

O médico do Centro de Contingência da covid-19 em São Paulo, professor José Medina, deixou claro em um depoimento que o risco de contágio é maior em aniversário com aglomerações do que no transporte público. 

No evento social a pessoa tem tempo de exposição maior e acontecem aglomerações de pessoas com faixas etárias diferentes, e com muita informalidade. “Todos conhecemos histórias de quem foi em festas e depois apareceram três ou quatro pessoas contagiadas. No transporte público é mais difícil definir isso, mas lá tem protocolo, tem máscara e as pessoas estão pensando no vírus”, explica Medina.

Outro ponto importante a se destacar, que demostra que o transporte coletivo não é um vetor de transmissão como alguns pensam, é o fato de que o índice de contaminados pela covid- 19 entre os funcionários dos sistemas de transportes coletivos, via de regra, tem sido expressivamente menor do que a média da população das grandes cidades brasileiras.

Segundo estudo realizado em fevereiro de 2021, o índice de contaminados pela covid- 19 entre os funcionários do sistema de Transporte por Ônibus da Capital de Porto Alegre, por exemplo, foi 28% menor que o da população geral da cidade. 

Se o transporte coletivo fosse o grande vetor de transmissão da covid-19, os colaboradores do setor deveriam estar entre os grupos que mais se contaminam, abaixo apenas dos profissionais da saúde que trabalham na linha de frente, como alguns sugerem. 

Protocolos

Isto não ocorre porque a maioria das empresas de transporte coletivo do País e do mundo tem adotado protocolos de segurança, compostos por dezenas de medidas de prevenção a convid-19. Portanto, o transporte público é operado com “protocolos”, e os passageiros fazem a sua parte na prevenção – por isso, é sim um meio seguro para a mobilidade urbana.

Outro estudo feito pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA) e Universidade de Oxford (Inglaterra) sugere que locais como o transporte coletivo, mesmo com alta ocupação, apresenta baixo risco de contagio, devido as características do serviço.

Os motivos são os seguintes: período curto de permanência, espaço fechado, mas bem ventilado (janelas abertas), obrigatoriedade do uso máscara, não ficam falando, gritando, cantando, as empresas operadoras seguem protocolos de segurança.

Esses fatores diferenciam o setor significativamente das chamadas “aglomerações”, quer sejam elas feitas em casa (com pouca ou muita gente) ou em festas clandestinas, pancadões etc. 

Esses eventos têm como características frequentes: períodos longos de permanência, espaços nem sempre bem ventilados, a maioria não usa máscara, conversam, gritam, cantam, comem, não seguem protocolos de segurança.

Portanto, para os tempos pós-normais, o problema não está no “coletivo”, mas no “coletivo sem protocolos”.

Outro estudo destacado pelo especialista em mobilidade Roberto Sganzerla diz respeito à curva de contaminação com casos confirmados e o aumento na demanda de passageiros, a partir da flexibilização em Belo Horizonte no segundo semestre de 2020. 

O levantamento concluiu não haver indicação de que o aumento do número de passageiros transportados esteve relacionado ao crescimento do número de casos da doença. O estudo foi feito a partir da análise de dados do número de passageiros em 15 sistemas de transportes públicos urbanos por ônibus no Brasil, que correspondem a 171 municípios, e a ocorrência de casos da covid-19 confirmados nas cidades. 

FOTO / Divulgação JC / Setra BH

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