Regina Duarte fala com exclusividade ao Portal Cidade Conecta

“Amo o meu ofício”.

Cristiane Miranda | 13/09/2021

Em entrevista EXCLUSIVA ao CIDADE CONECTA, a atriz Regina Duarte fala sobre sua carreira bem-sucedida na TV brasileira, dos personagens que viveu e dos planos futuros   

A teledramaturgia surgiu, no Brasil, na década de 1950 e, desde então, tornou-se o produto televisivo mais popular. Brasileiros de todos os quatro cantos do país já, em alguma época de sua vida, acompanharam as histórias grandiosas, as mocinhas e os vilões através de uma tela de tv. Novelas ditaram comportamentos na sociedade, já influenciaram o modo de vestir e de falar do brasileiro. Personagens como a viúva Porcina (1985-1986) deixaram marcas indeléveis em uma geração. Regina Duarte, intérprete da inesquecível viúva Porcina, concedeu uma entrevista exclusiva à jornalista Cristiane Miranda, colaboradora do JC.  Aos 74 anos, a atriz que nasceu na cidade paulista de Franca, e estreou em 1965 na TV Excelsior, mostra neste bate-papo toda a energia, a simplicidade e o carisma que conquistaram milhões de fãs pelo Brasil. Confira a seguir.     

CIDADE CONECTA: Regina, você tem 55 anos de profissão. Podemos dizer que você fez todos os papéis que uma atriz desejaria?

REGINA DUARTE: Tenho a graça e o privilégio de ter vivido muito mais personagens do que imaginei lá atrás, quando comecei a sonhar em ser atriz. É um trabalho apaixonante, sei que tenho me agarrado a todas as propostas que acrescentaram amplitude ao meu ser e deram variedade e profundidade aos meus trabalhos. Além disso, nunca fiz nada mais ou menos, sempre me doei por inteiro. Acho que gratidão é a palavra-chave para as portas que se abriram para que eu pudesse experimentar a graça que é me tornar outra pessoa, e no próximo projeto, outra … e mais outra… parece esquizofrênico? (risos). Não, não é isso, é só arte. Quando a gente ama o que faz a gente se doa e, também, aprende muito, sempre. É claro que existem personagens que eu gostaria de ter feito e lamento até hoje não ter acontecido. Por exemplo: a Anne de “O diário de Anne Frank”. Cheguei a fazer o teste para o papel, mas, não fui escolhida. Tem também o Iago, do Otelo de Shakespeare, o vilão mais terrível de toda a história da dramaturgia mundial. Fazer a Ane não dá mais, mas o Iago, quem sabe um dia!

Em suas entrevistas, quando lhe perguntam sobre mocinha X vilã, você diz que sempre preferiu os papéis da mocinha. Por quê?

Quando eu disse isso, as novelas eram mais longas do que as de hoje e me afligia ter que conviver com um personagem “do mal” durante oito, 10 meses, e, às vezes, até por mais tempo. Pesado, não é?! Trabalhar o tempo todo fazendo a advogada de defesa de gente má, traiçoeira, destrutiva, psicopata, que horror!!. Podendo me esquivar, prefiro. Admiro, no entanto, colegas meus que encaram essa tarefa numa boa e até se divertem na missão, apoiados na premissa de que “artista bom é aquele que não escolhe papel e encara qualquer parada!”. A esses, minha solidariedade, meu aplauso e minha admiração sempre. 

Os papéis de mocinha da sua época eram diferentes das “mocinhas” atuais?

Sim, com certeza! O país era outro, a sociedade, as famílias eram outras, o conceito de moralidade era muito menos elástico. Além disso, o Exército Brasileiro estava no poder, havia censura mesmo com as novelas que juntamente com o futebol, eram o circo do povo. Com o passar do tempo as mocinhas ingênuas, passivas sofredoras e com temperamentos adolescentes,  começaram a me deixar desconfortável. Eu já tinha quase 30 anos e os papéis permaneciam muito parecidos, não me davam mais oportunidade de mostrar meus potenciais artísticos, não me representavam mais. Fui então buscar no teatro uma personagem totalmente diferente do que já havia feito, para eu poder reciclar e mostrar aos autores e aos diretores de televisão que eu tinha capacidade para viver outros tipos de mulher. Na teledramaturgia de hoje as mocinhas se informam, estudam, contestam, retrucam. Até as princesas dos desenhos animados se apresentam muito mais verossímeis, vão à luta de seus objetivos sem perder a doçura e a feminilidade.

O que é essencial ao ator?

Um ator que não esteja somente interessado na vaidade de se tornar famoso e socialmente adulado. Um ator precisa ter consciência, de que seu papel social é defender o ser humano em toda sua multiplicidade. Daí que o interesse pela leitura dos clássicos torna-se indispensável. Ler tudo e estar atento ao mundo, ao que está acontece hoje em todas as classes sociais do nosso País, é o que prepara um ator para ser representante do humano hoje, mesmo que o pretexto seja um texto dos anos 1.400 ou 1.880. A função básica do ator é ser um espelho e a sociedade possa se ver refletida sempre, em sua busca de evolução.

Além de atuar, você também dirige e produz peças teatrais. Chegar nesse ponto é o que todo ator almeja?

Sempre me interessei por todos os elementos que compõem o meu ofício. Além de ter iniciado a carreira como atriz amadora, aprendi com o Walter Avancini a me interessar pelo todo, o que quer dizer : além de estudar o meu personagem e decorar o meu texto, tenho a responsabilidade de assumir a importante tarefa de estar ligada e colaborando com o espetáculo em seu todo: figurino, cenário, adereços, objetos da cena, músicas. E é mergulhada nesse clima criativo proposto pelo autor da peça e pelo diretor que venho desenhando a minha carreira. Claro que tudo isso me leva ao desejo de, a esta altura da vida, dirigir. Amo meu ofício.

O que a cultura tem a contribuir com a sociedade?

A definição de cultura é muito ampla e complexa. Simplificando: cultura pode ser vista como herança dos costumes e dos potenciais criativos da humanidade. A cultura contribui para a sociedade com conquistas de conhecimento que perfazem uma riqueza incalculável. O melhor que podemos fazer é respeitar e cultivar a nossa cultura de todas as formas possíveis. Ela é responsável pelos ser, fazer e pertencer.

Quais projetos você ainda quer fazer tanto como atriz quanto como diretora?

Não cultivo sonhos. Gosto de sonhar, mas, são tantos que me sentiria sempre impotente para realizá-los. Meu estilo é mais o de ficar atenta às oportunidades que a vida me apresenta, escolher o que fala mais comigo e com minhas possibilidades e ir em frente, com paixão e muita disciplina.

E para não perder o nosso hábito mineiro, o que você gosta de fazer quando vem a Minas Gerais?

Adoro bater papo, fico me deliciando com o sotaque dos mineiros.

Adoro a elegância discreta e super bem acabada da moda feminina, criada pelos estilistas de Minas Gerais. Aprecio e me esbaldo na culinária mineira, com destaque especial à cachaça pura, branquinha e, evidentemente, aos doces! Uhúúú! A Cultura preservada da arte barroca, os romances de uma literatura vigorosa a lucidez, o jogo de cintura e o patriotismo de grandes nomes da nossa política, também tem em mim uma admiradora. 

Obrigada pela oportunidade de, mais uma vez, fazer contato com os queridos mineiros.

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