Por dentro da Mercearia Paraopeba, a venda mais mineira do Brasil

Um dos convidados para falar sobre empreendedorismo gastronômico no Festival Fartura Nacional, Rony de Almeida conta como é possível manter um negócio pautado em pequenos produtores locais

Projeto Fartura | 02/02/2021

Do teto ao chão, de um lado a outro, não há um único cantinho desocupado. Em pouco mais de 26 metros quadrados, a roça inteira se encontra na Mercearia Paraopeba, em Itabirito, a pouco mais de 50 quilômetros de Belo Horizonte. A venda, fundada em 1876, parece congelada no tempo. Por ali, as coisas funcionam como nos séculos passados: a palavra do homem vale mais que dinheiro; o escambo é moeda forte; e tudo que está a venda vem de pequenos produtores locais. “A gente já vendia orgânico antes mesmo dessa palavra entrar na moda”, diz Roney de Almeida, carinhosamente chamado por Roninho. O negócio foi herdado do seu bisavô, mas foi com o pai, Seu Juca, que ele aprendeu a arte do comércio. E nunca mais parou. Inclusive, usando antigas técnicas de vendas como a caderneta de fiado ou ainda, fornecendo açúcar para a produção de alguns produtos como a goiabada cascão, vinda de São Bartolomeu, distrito de Ouro Preto. Naquele corredor estreito, o escambo corre solto. “O meu fornecedor de fubá vai me entregar o produto e percebe que precisa de uma outra coisa que eu vendo, aí a gente troca”, explica Roninho. É mais ou menos assim: o Chico Peixoto entrega o queijo e leva a rosquinha feita pela Cidinha… 

Com a fala calma, olhar doce e um sorriso solto, Roninho é capaz de convencer os clientes comprarem muito além da listinha de produtos faltosos. Dá para encher o embornal – nome do saco usado para levar comida nas cavalgadas – de tudo que você possa imaginar. Distribuídos por caixas, sacos, prateleiras e balaios, a clientela encontra filtro de barro, penico, xícara, fubá, queijo, goiabada, tira de chinelo de borracha. Têm “uns trem antigo toda vida”, que quase não se acha mais por aí, como flor de macela para rechear travesseiro, sabão de cinza e até azeite de mamona, usado como acendedor de lampião ou para curar umbigo de menino recém-nascido. 

Mais que uma mercearia, a Paraopeba diz muito da alma empreendedora mineira. Tanto, que ela já esteve com o Fartura diversas vezes durante seus mais de 20 anos de história. A fechada do estabelecimento, com um monte de coisas penduradas pelas portas, foi a capa do livro Expedição Fartura, em 2018. No final do ano passado, Roninho foi um dos nossos convidados para falar sobre empreendedorismo gastronômico durante o Festival Fartura Nacional, que reuniu profissionais do setor de norte a sul do país. A conversa, conduzida pelo pesquisador Rusty Marceliini, pode ser assistida em nosso canal do Youtube. 

Em tempos de compras online em que o cliente muitas vezes não tem rosto, Roninho se faz necessário. Nos faz lembrar que comércio vai muito além do simples ato de vender. “Você só cresce quando as pessoas ao seu redor também crescem”, me disse uma vez. Daí o olhar atento aos produtores locais, aos desejos dos clientes. Daí o garimpo constante por ingredientes de primeira. “Quando um freguês entra na minha loja, às vezes se decepciona com o espaço, acha que seria maior. Mas basta ele começar a provar um doce, andar por entre as prateleiras para descobrir que a Mercearia é gigante.”

Fotos: Phillip Martins

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