Perspectivas econômicas para 2021

Estamos nos aproximando do fim de 2020 e, depois de um ano desafiador, ainda temos muitas dúvidas para 2021. O que esperar para o próximo ano? Do ponto de vista econômico, eu diria otimismo, mas com cautela.

Rafaela Vitoria | 08/12/2020

A crise econômica de 2020 foi inédita na nossa história e ainda temos muitos problemas para serem resolvidos. Mas a forte recuperação já iniciada também deixa um legado positivo para o próximo ano. Apesar de ter ficado abaixo do esperado, é notável o crescimento econômico no 3º trimestre. Depois de perdas históricas, vimos a forte retomada nos diversos setores da  indústria, varejo e transportes. Na comparação com o mesmo período de 2019, vários setores se mostraram resilientes e apresentaram evolução, como os segmentos financeiro, imobiliário e tecnologia da informação.

Apesar de parte do crescimento nesse segundo semestre ter sido estimulado por gastos fiscais que não se repetirão em 2021, ainda vamos conviver com outros estímulos como a maior liquidez, maior oferta de crédito e juros baixos por uma boa parte do ano. Aliás, um dos pontos fortes para a economia no próximo ano é o inédito crescimento da poupança. A poupança alcançou 17,3% no 3º trimestre, maior patamar desde 2013. A queda mais acelerada do consumo e as transferências de renda via auxílio emergencial levaram a um maior acúmulo de poupança na economia. E essa nova formação de poupança bruta ao longo de 2020 pode significar capacidade de financiamento para novos investimentos em 2021, potencializando o crescimento, principalmente se mantivermos um cenário de juros baixos.

Mas 2021 não será um ano sem seus próprios desafios. O setor de serviços ainda tem um longo caminho para recuperar e o mercado de trabalho inicia o ano bastante fragilizado, dependendo exatamente da retomada mais ampla dos setores ligados aos serviços que podem impulsionar essa recuperação do emprego. A lacuna entre o fim do auxílio emergencial no começo de 2021 e o início da vacinação pode significar uma desaceleração do crescimento observado, principalmente, pelo lado do consumo das famílias.

Nesse sentido, é fundamental que o governo volte a focar nas reformas e principalmente no orçamento de 2021, que só deve ser votado em fevereiro, após as eleições para presidente da Câmara e do Senado. Uma melhoria e a revisão dos programas assistenciais, ao mesmo tempo cumprindo a regra do teto de gastos, são fundamentais para enfrentarmos os próximos desafios. A dívida pública ultrapassou a marca de 90% do PIB e o déficit primário deve ficar próximo de 10% em 2020.  O forte desajuste nas contas públicas em 2020 teve como principal causa as medidas de combate à pandemia. 

Mas com o risco fiscal em elevação, o retorno ao equilíbrio das contas públicas passa não somente por um ajuste de curto prazo, com a aprovação da PEC Emergencial para viabilizar o orçamento de 2021, como também por um avanço nas reformas estruturantes, necessárias para o Brasil voltar a ter um crescimento econômico sustentável. Por ser um ano sem eleições, em 2021 teremos mais uma oportunidade de avançar nas importantes reformas como a tributária e a administrativa, que podem pavimentar um caminho de maior crescimento no longo prazo.

E o que esperar para o câmbio, inflação e juros?

O IPCA acelerou nesse final de ano e deve surpreender encerrando 2020 acima de 4%. A recente alta das commodities e o elevado patamar médio do cambio ao longo dos últimos meses contribuíram para maiores reajustes, principalmente nos grupos alimentos e transportes. Por fim, o anúncio da bandeira vermelha nas tarifas de energia em dezembro deverá representar significativo reajuste, levando o IPCA a superar 1% somente neste mês. No entanto, essa pressão inflacionária tende a ser passageira. O cenário de commodities em alta, sinalizando a recuperação global, juntamente com a maior liquidez e juros menores no mercado internacional, tendem a favorecer a desvalorização do dólar, como já observado nas últimas semanas, e contribuir para conter a inflação nos próximos meses. 

Além disso, o fim dos estímulos fiscais também deve retirar parte da pressão de demanda observada no 2º semestre e, assim, a inflação deve convergir para a meta. Nesse cenário, a taxa Selic não deve ter alteração no curto prazo. Considerando as incertezas acerca da economia nos próximos meses, o Banco Central deve manter a Selic em 2% pelo menos pela primeira metade de 2021.

Podemos, sim, crescer acima de 4% em 2021. A vacina já é uma realidade, o cenário internacional é favorável e nossa economia tem bastante potencial, considerando a elevada capacidade ociosa que temos hoje, principalmente no mercado de trabalho. Mas esse caminho de crescimento exige um esforço maior, principalmente pelo lado político, garantindo a consolidação fiscal e avançando na agenda de reformas, para evitarmos mais um cenário que saímos de uma crise apenas com recuperação parcial do nosso potencial econômico.

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