Pandemia X Mercado Automotivo: incertezas e oportunidades

Balanço do mercado em abril mostra seminovos ainda na preferência dos clientes. Aumento nas vendas é de mais de 400% em relação ao mesmo mês de 2020.

Da Redação | 06/05/2021

A pandemia segue impactando os negócios no mercado automotivo, mas ao mesmo tempo tem gerado oportunidades. Na capital mineira, assim como em outras cidades brasileiras, as restrições ao funcionamento do comércio estabelecidas até meados de abril tiveram reflexo direto no volume de vendas.

Ainda assim, especialistas do ramo concordam que a retração, em específico no caso dos carros novos, está muito mais ligada à falta de produtos para entregar, ocasionada pela escassez de componentes (situação que já vem de alguns meses), do que o fechamento de lojas, concessionárias e revendas em si. No segmento de seminovos, as vendas continuam com crescimento de três dígitos neste mês, se comparado a abril de 2020.

Enquanto os estoques de modelos zero quilômetro estão baixos, os usados e seminovos largam na dianteira. “E é uma situação intrincada, querendo ou não, com a pandemia. Níveis normais de fabricação não devem ser restabelecidos em menos de seis meses, mesmo assim se tudo correr bem”, pondera o diretor comercial da AutoMAIA Veículos e diretor de marketing e planejamento da Associação dos Revendedores de Veículos no Estado de Minas Gerais (ASSOVEMG), Flávio Maia.

Em Belo Horizonte, com a recente reabertura do comércio, como em outras cidades do país, o otimismo continua em alta principalmente para os seminovos. “O segmento registrou crescimento em todos os meses do primeiro trimestre de 2021”, conta Flávio Maia.

Segundo a Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), entidade que representa o setor de lojistas multimarcas de veículos seminovos e usados, os números das vendas em abril refletem os efeitos da segunda onda de Covid-19 que atingiu o país, provocando medidas mais enérgicas de isolamento, além de um novo fechamento do comércio a partir de março.

Por outro lado, a boa notícia é que, em comparação com o mesmo mês de 2020, o aumento das vendas foi de 459,4%. O acumulado nos quatro primeiros meses de 2021 também foi 40,7% superior ao mesmo período do ano passado. Em abril foram comercializadas 1.118.285 unidades, contra 1.237.030 em março, um recuo de 9,6%.

Em Minas Gerais, o número de vendas de carros seminovos e usados em abril foi de 142.181 unidades, diminuição de 16,4% na comparação com março, quando foram registradas 170.113 unidades vendidas, e ao mesmo tempo crescimento de 224,3% no paralelo com abril de 2020, quando foram computadas 43.839 unidades vendidas. Considerando o acumulado do ano em Minas Gerais, até o fim de abril foram 586.097 carros usados e seminovos comercializados, frente a 403.684 no acumulado de 2020, no período equivalente, incremento de 45,2%.

“Os efeitos dessa segunda onda da pandemia se fizeram sentir no mês de abril, mas acreditamos que a nova flexibilização das medidas e o retorno das atividades do comércio, já anunciadas pela maioria dos governos estaduais, deverão gerar resultados positivos novamente nas próximas semanas. Isso, aliado ao avanço da vacinação por todo o país, deve trazer uma nova onda de confiança aos consumidores”, avalia o presidente da Fenauto, Ilídio dos Santos. 

Retomada

Ao mesmo tempo, as fábricas de automóveis que fecharam ou interromperam atividades no Brasil por conta do agravamento da pandemia (13 montadoras paralisaram produção nesta fase mais aguda da pandemia, afetando 29 fábricas no país), e também devido à falta mundial de peças, começam a retomar a produção de veículos em suas fábricas por aqui.

Conforme levantamento realizado em 30 de março pela Anfavea, representante dos fabricantes de veículos instalados no Brasil, estavam na lista das empresas paradas Volkswagen, Toyota, Mercedes, Renault, Scania, Volkswagen Caminhões e Ônibus, BMW, Agrale, Honda, Jaguar, Nissan, GM e Volvo.

Agora, as primeiras montadoras na retomada de atividades em território nacional são Volkswagen, GM e Toyota, e as outras 10 seguem o mesmo caminho. A produção vem sendo restabelecida, mas não em ritmo normal.

Em relação ao cenário atual do crédito no mercado automotivo, entidades financeiras têm facilitado o acesso para financiamento, principalmente porque os carros próprios vêm encontrando a concorrência com os carros por assinatura, uma demanda grande entre os mais jovens e uma surpresa no segmento, como constata o CEO da Aval Consultoria e da Universidade Automotiva (Uniauto), Amos Lee. “Para o seminovo, continua se mantendo bem. A tendência é que o mercado automotivo, em geral, volte aos poucos ao normal. Não vou dizer totalmente, mas consideravelmente”, diz o consultor.

Fato é que a Covid-19 transformou os hábitos de consumo e o comportamento dos clientes. Empresas que lidam bem e aproveitam as possibilidades do digital saem na frente. “Há muita gente vendendo, mesmo com as portas fechadas. Ferramentas virtuais de vendas ajudam a amenizar dificuldades. Na AutoMAIA Veículos, 68% das vendas de 2021 vieram dessas ferramentas. O Instagram do grupo recebe entre 700 mil e 800 mil visitas todos os meses”, diz Flávio Maia.

Serviços

O agravamento da crise com o coronavírus no Brasil também afetou o funcionamento dos Departamentos Estaduais de Trânsito (Detran), muitos que tiveram os serviços reduzidos desde março, e agora recomeçam. Nesse intervalo, o Detran mineiro funcionou com apenas 30% da capacidade, enquanto mais de 70% das unidades no país ficaram fechadas. As limitações se deram em grande parte por questões de contingente administrativo – muitos funcionários receberam férias e outra parte passou para trabalho remoto.

O período de paralisação pode ter influenciado na aquisição de carros, já que os compradores em potencial não conseguiam a documentação necessária, como transferência de propriedade, para os usados, ou emplacamento, para os novos.

Em determinação posterior, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) estabeleceu, por exemplo, que o prazo para emplacamento de 30 dias poderia ser suspenso, permitindo ao comprador o trâmite sem limite de tempo, no período que lhe convém, mas a decisão não foi aderida pelos Detrans de Minas Gerais, Santa Catarina e Roraima.

Perspectivas

Segundo a Anfavea, os resultados do mercado nacional no trimestre encerrado em março estão alinhados com as projeções apontadas no começo de 2021 – a Anfavea estimou 2,36 milhões de veículos vendidos para 2021, alta de 15% na comparação com 2020, sendo 353 mil unidades exportadas (mais 13% no paralelo com o ano passado), e produção de 2,52 milhões de unidades (+25%).

A entidade toma os números de venda, exportação e produção como aceitáveis diante do agravamento da pandemia, ao lado de entraves econômicos e políticos. “Se é que de tudo isso podemos tirar uma boa notícia, dá para dizer que o mercado está mais adaptado às questões da pandemia”, acrescenta Flávio Maia.

Neste cenário de incertezas, o volume de negócios no ramo dependerá muito dos resultados das ações de contenção à Covid-19 e da evolução da imunização. “Se o pico do contágio na segunda onda já tiver sido atingido, poderemos ter uma abertura gradual, que refletirá em bons resultados. A diferença do que foi aferido no fechamento deste mês, em relação a abril do ano passado, pode ser atribuída ao fato de que, neste período em 2020, a maioria das revendas estava fechada. A questão é que agora, em abril de 2021, a pandemia parece estar em seu pior mês – são mais de 400 mil mortes”, observa Flávio Maia.

Entre os obstáculos colocados a um futuro próximo, também está a desvalorização cambial, o desemprego, a possível volta da inflação e a elevação dos juros.”Mas, se crescemos 400% em relação a abril de 2020, foi satisfatório”, conclui Flávio Maia.

Foto: AutoMAIA Veículos

Mais Notícias