Outros Lados da Moeda

No Brasil, empresa privada é aquela que é controlada pelo governo, empresa pública é aquela que ninguém controla...  Roberto Campos

Humberto Alves Pereira Filho | 03/05/2021

diretor Humberto Alves Pereira Filho

Falar é fácil, escrever nem tanto. Falar é tão fácil como dar “bom dia” a cavalo. Não que os cavalos não mereçam. Falar é fácil, criticar é ainda mais. Fazer é que são elas. Peguemos a falácia oportunista dos “ônibus cheios”, principalmente na pandemia.

Usando outro jargão, tudo tem dois lados, no caso, vários lados. Nos “ônibus cheios”, o mais conhecido, falado e criticado é exatamente o lado “cheio”.

E aproveitando para falar da relação (ônibus cheio x disseminação do coronavírus), a cada dia surgem novos dados e pesquisas destacando que a curva de casos não tem nenhuma relação com o uso do transporte. Caso de uma pesquisa da USP (Universidade de São Paulo) que apontou que a taxa de prevalência da Covid-19 entre atividades não essenciais, como lazer, bares e restaurantes, é maior que entre atividades essenciais, como o transporte público (ônibus, trens e metrô).

Dados preliminares apresentado no início de abril, pelo governador de Nova York, Andrew Cuomo, apontou que a cidade epicentro do coronavírus nos Estados Unidos, cerca de 66% das pessoas que foram infectadas pela doença, nos últimos dias, estavam dentro de suas casas. Desde o início da pandemia em 2020, vários estudos realizados na França, Reino Unido e Japão, vinham apontando que o transporto coletivo, quando operado com protocolos de segurança não apresentavam altos riscos de transmissão da covid-19.

Na leitura geral dos acontecimentos, os empresários do setor são sempre os bandidos. Fica uma pergunta para você que está lendo este texto agora. Você acredita que seria inspirador, divino e maravilhoso ser dono de uma empresa de ônibus? Que teria vida fácil, ganhando muito dinheiro com o pagamento de tarifas pelos passageiros? Acham que ônibus circulam e vivem de vento? Que só existe bônus sem ônus? Desculpe, mas você está completamente enganado!

Apenas para uma breve reflexão, o sistema de transporte público foi dimensionado para andar com sua lotação completa para que a receita pudesse equilibrar as despesas de operação do sistema. Mas o que vem acontecendo, já algum tempo, inclusive antes da pandemia é a queda ano a ano no número de passageiros. O sistema foi dimensionado para transportar 1,6 milhões de passageiros como citado em contrato de concessão de 2008, mas na realidade, antes da pandemia eram transportados 1,2 milhões e, com a atual pandemia, a média hoje é de 500 mil passageiros transportados por dia.

E o problema de perda de demanda não é somente de Belo Horizonte que, entre 2013 e 2017, teve queda de 25% no número de passageiros. Nova York, entre 2017 e 2018, também apresentou perda média diária de 176 mil passageiros. Em Londres, 106 mil passageiros deixaram de usar o Transporte Público no mesmo período.

O resultado dessa equação negativa em Belo Horizonte é que o sistema vem operando com 100% da frota para atender uma demanda de passageiros 50% inferior ao que era transportado antes da pandemia. O prejuízo acumulado mensalmente está na casa dos R$ 30 milhões de reais.

Situação do setor é reflexo da falta de investimentos, nos últimos 10 anos, em infraestrutura e políticas públicas que priorizassem o transporte público como principal meio de mobilidade da cidade. Em Nova York os ônibus são prioridade em todas as avenidas e ruas de sua rota, inclusive quando chegam na periferia. Em Belo Horizonte, na maioria dos corredores, os ônibus disputam com carros o mesmo espaço, o que acarreta atrasos com perda de eficiência no atendimento e aumento nos custos das viagens

OK. No Brasil não é para principiantes e uma experiência pouco agradável, para dizer o mínimo e com educação. Tudo no Brasil é mais complicado. O transporte público, por natureza, deveria ser integrado e complementar em todos os seus modais.

Daí, o primeiro grande problema de BH, uma metrópole, sem metrô. Sim, não temos metrô, no máximo, trens de superfície, com estações distantes e esparsas, exigindo do usuário muitas conexões e paciência. Esta outra colossal deficiência é tema para outra ocasião, fiquemos nos ônibus e em Belo Horizonte.

Trata-se de um modal complexo com enormes custos operacionais invisíveis e inimagináveis para que seus usuários possam compreender. Diferentemente de outras cidades do país, que recebem subsídio, o sistema em Belo Horizonte é 100% custeado pelos passageiros, por meio do pagamento das passagens. Incluindo nessa conta as gratuidades de idosos e pessoas com deficiência. A situação que no “normal” já se mostrava insustentável, ficou inviável a beira do colapso com a pandemia.

Dentro da máxima, “ruim com ônibus, muito pior, catastrófico sem eles”. Na cidade de Conselheiro Lafaiete, os empresários entregaram a gestão do serviço de transporte, o resultado foi o caos total! A prefeitura, para amenizar, autorizou o atendimento da população por meio de vans, mas totalmente insuficiente e, o pior, nenhum empresário está disposto a assumir as operações do transporte na cidade.

´É possível perceber que a situação é muito mais complexa, que apenas ônibus cheio ou atrasado. Demissões em massa nas empresas? Pode se tornar uma realidade em pouco tempo diante dos números, e seria a pá de cal para o setor, que para sair do negócio teria de arcar com cerca de irreais R$ 300 a R$ 400 milhões em rescisões. Quem paga a conta, sem chuva e árvores de dinheiro?

O custo do sistema hoje é de cerca de R$ 84 milhões por mês, com arrecadação em torno de 50 milhões. Pode? Quem vai montar um sistema como o de Belo Horizonte, com cerca de três mil ônibus ao custo de mais de R$ 1 bilhão de reais, para perder dinheiro? Não faz o mínimo sentido.

Mais uma questão que precisa ser repensada é a quantidade de pessoas com direito a gratuidade e os impactos desses custos no sistema. Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, além dos idosos acima de 65 anos e pessoas com deficiência, agentes de inspeção da Justiça do Trabalho, oficiais da Justiça Federal, carteiros e mensageiros dos Correios também não pagam passagem, cujo custo final cai no colo do trabalhador assalariado e da população de baixa renda, que financia o sistema segundo modelo atual.

Outras perguntas que não precisam nem de troco: Quem, no fim desta guerra, “para variar”, será o grande prejudicado? Onde vamos parar? No ponto?

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