Os próximos passos da política monetária

A taxa Selic foi mantida em 2%, mas no comunicado, o colegiado não mais espera que ela fique nesse patamar tão baixo por prazo indeterminado

Rafaela Vitoria | 26/01/2021

Na reunião do Copom em janeiro, a taxa Selic foi mantida em 2%, mas no comunicado, o colegiado não mais espera que ela fique nesse patamar tão baixo por prazo indeterminado. De fato, podemos ter nos próximos meses o início de um novo ciclo de alta da Selic, mas como o próprio Banco central coloca, ainda temos um cenário de bastante incerteza. 

A taxa Selic, que é a taxa de juros básica da economia, é definida pelo Copom em suas reuniões que acontecem a cada 6 semanas. A última alta da Selic foi em julho de 2015, quando a inflação estava em 10% ao ano e a Selic chegou a 14,25%. De lá para cá tivemos 3 ciclos de queda de juros, o primeiro que se encerrou em março de 2018 com a Selic em 6,5%, o segundo quando a Selic chegou em 4,5% em dezembro de 2019 e com a crise da pandemia, a taxa foi novamente reduzida de maneira extraordinária para 2% em julho de 2020.  

A política monetária expansionista foi aplicada à medida que a inflação foi sendo reduzida e em vários momentos permaneceu até abaixo do centro da meta. Mesmo que com algumas altas temporárias, devido a choques de ofertas, as medidas de núcleo de inflação, que excluem os itens mais voláteis, ficou em torno de 2% nos últimos anos, o que é muito positivo para a estabilidade da moeda. 

Mas quais serão os próximos passos da política monetária? A economia brasileira ainda enfrenta alguns riscos que podem tanto elevar a inflação como mantê-la abaixo da meta, e essa definição de cenário que o Copom deve avaliar ao longo dos próximos meses para decidir os próximos passos. Por um lado, o fim do auxílio emergencial e outras medidas de estímulo usadas em 2020 juntamente com a ressurgência da segunda onda da corona vírus podem causar uma desaceleração da economia nos primeiros meses do ano e, sendo assim, manter os juros em patamar mais baixo será mais apropriado nesse momento de transição. 

Por outro lado, a chegada da vacina deve elevar a mobilidade e a recuperação econômica tende a ser mais rápida, provavelmente a partir do 2º trimestre. O setor de serviços, que foi o mais impactado durante a pandemia devido as restrições, pode voltar a crescer de maneira mais significativa nos próximos meses. Esse crescimento econômico deve manter a inflação próxima da meta, que esse ano é de 3,75% e em 2022 é de 3,50% e, nesse  cenário, o Banco Central pode começar a retirar os estímulos e elevar a taxa de juros para um patamar mais neutro, entre 5% e 5,5% até 2022. 

 Um dos principais riscos para o cenário de inflação ainda é o risco fiscal. Como já vimos nos últimos meses a incerteza com relação a política fiscal tende a elevar a taxa de cambio, que já acumula uma desvalorização de 30% nos últimos 12 meses. Apesar de boa parte dessa alta não ter sido repassada para os preços ao consumidor, principalmente os serviços, a continuidade da desvalorização poderia sim gerar mais inflação. Como o orçamento de 2021 ainda não foi aprovado, ainda monitoramos a possibilidade de um aumento de gastos como a extensão do auxílio sem contrapartida de redução de despesas, o que sinalizaria um novo aumento da dívida pública, enfraquecendo o cambio e elevando as expectativas de inflação. 

O cenário de incertezas requer cautela por parte do Banco Central. Pelos próximos meses, a taxa Selic deve continuar em 2%, mas a recuperação econômica deve resultar em uma necessidade de um pouco mais de juros na economia, para que a inflação não suba além da meta, mas a alta será gradual e ainda assim teremos juros bem menores que historicamente no Brasil. 

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