O que faz de uma casa um lar? Nossas casas, uma história.

Texto: Marina Dubal e Barbara Campos

Marina Dubal | 11/11/2021

Há um tempo recebi uma mensagem de um amigo querido com a seguinte notícia: teria que se mudar em breve para um outro apartamento. O tom foi de desânimo, quase perda. Não era algo que ele queria ou planejou, mas a vida tem dessas inevitabilidades e mudanças afetam pessoas de diferentes formas. Como arquiteta, abraço diariamente as mudanças, fiz delas minha profissão. A relação das pessoas com os espaços é algo que me interessa profundamente, logo a tristeza de meu amigo me tocou. E partindo da minha vantagem óbvia em nossa própria intimidade, tentei consolá-lo: “ nossa casa é onde nós e nossas plantas estão”.

Me aproveitei do valor de refúgio que as plantas tinham em sua casa, mas a realidade é que muitas palavras caberiam nesta frase. Plantas, familiares, amizades, animais de estimação, coleções, móveis, objetos. Tendemos sistematicamente a nos cercar das coisas que amamos, do que nos importa.  E ao longo da vida acumulamos bens, pertences e muitas memórias.

Confesso aqui não sentir tanto esse saudosismo em relação a locais que morei. Não sinto falta das casas que perpetuaram minha vida. Isso provavelmente tem relação com minha história de múltiplas mudanças ao longo da vida, mas a realidade é que me mudo amanhã mesmo sem ressentimentos ou saudades. E está tudo bem, somos diferentes. Compenso esse desprendimento com uma profunda relação de pertencimento com os objetos que me cercam. Sou aquela pessoa que guarda souvenires de momentos, coleciona símbolos para as memórias. Meu lar está nestes objetos. Vai desde um ingresso daquele show com a melhor das companhias a uma flor seca que um dia foi uma homenagem. Até mesmo uma almofada que tem uma história gostosa, um quadro que me toca, um móvel que foi de alguém especial. Os carrego como parte de minha história. Então é isso que faz da casa um lar?

Talvez para mim sim, mas o que mais me interessa nessa pergunta é a diversidade das respostas. Logo, sinto em decepcionar ao afirmar que esta coluna ousa em não responder ao seu próprio questionamento. Não por falta de refletir, mas pela conclusão de que não existe uma resposta única. 

Uma vez li em uma entrevista um arquiteto sendo questionado sobre o conceito de arquitetura. Me desculpo por não recordar de seu nome, mas tento me redimir ao lembrar com exatidão de sua resposta. A pergunta foi ousada. Arquitetura é plural e complexa o suficiente para que o mais experiente profissional engasgue na resposta. O que é arquitetura? O entrevistado foi sagaz em recorrer a Vilanova Artigas. Respondeu: “é uma boa pergunta”.

Apesar de minha pouca maturidade na época, na hora me encantou a simplicidade da resposta e confesso me orgulhar por ter percebido algo importante nesse conceito. Mas também ali refletiu a minha inocência em achá-la simples. O viver da profissão me faz enxergar hoje o quão na verdade ela foi complexa.

Para explicar o porquê preciso voltar no conceito da “tela em branco”. Nunca gostei dessa expressão. Parece que um projeto nasce de um arroubo criativo, da pura vontade de seu criador. Não acredito que para nós exista realmente uma tela em branco. Um projeto começa de um sonho, de uma necessidade. Começa para alguém ou para muitos. Ele tem endereço. Neste endereço o sol nasce ali, o vento vem “daqui”, existem gostos e desejos a considerar e está nisso meu ponto de partida. Nada em branco, já começa cheio de cores e condições para se inspirar. E é por isso que a arquitetura só faz sentido se for para alguém. Ela é para você, que habita.

Se arquitetura é feita para cada um de nós, volto em minha pergunta, o que faz da nossa casa um lar? A resposta está em você. E é por isso que a boa arquitetura é uma boa pergunta, pois a resposta certa precisa da pergunta certa. A diferença de uma casa para um lar reside na sua capacidade de exprimir a identidade de quem ali vive. Apropriar de qualquer ambiente exige identificação. E é aqui que entramos, arquitetos com suas muitas perguntas, em nossa missão de achar essa resposta que transforma a casa em lar. Arquitetura não deveria começar com uma tela em branco, porque não é sobre mim, é sobre você. E nem sempre as pessoas conseguem se apropriar de seus espaços, então cabe a nós escutar, entender para depois transformar ou criar. 

Quanto ao amigo do começo da história, em menos de uma semana ele encontrou seu novo endereço. Perto do antigo, levou, é claro suas queridas plantas. E com a notícia da mudança eu também recebi um agradecimento. De tê-lo lembrado do verdadeiro sentido de sua casa, do que realmente importa. Mas sou eu que o agradeço pela oportunidade da reflexão. De me lembrar que nosso lar começa em nós. E dedicar nossas vidas a descobrir o lar de cada um é um grande prazer. Não é maravilhosa a sensação de ter orgulho do que se faz?

E para você, o que é lar? Tem uma história para contar? Manda pra gente em @dubalarquitetura

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