O novo luxo com Percival Lafer: ode ao design acessível

A inovação veio da busca de soluções que não ficaram restritas apenas a materiais largamente utilizados na época, mas do desbravamento dos recursos técnicos de novos materiais que trouxeram uma imensa liberdade de criação

Marina Dubal | 10/11/2020

Um dos meus passatempos prediletos é ler e pesquisar o que acontece no nosso setor de arquitetura, design e nas cidades pelo mundo. O design de mobiliário brasileiro do chamado “mid-century” ou década de 1950 aproximadamente vem sendo, ano após ano, destacado nas maiores feiras de design europeu com nomes já consagrados e conhecidos aqui como Sérgio Rodrigues, Oscar Niemeyer, Joaquim Tenreiro, Zanini Caldas, Geraldo de Barros, entre outros. Essas peças – hoje super disputadas no garimpo mundial, combinam com maestria madeira, couro e metal, tudo isso associado a muita ergonomia, charme e conforto.

Num cenário mais recente, Percival Lafer (São Paulo, SP, 12 de abril de 1936) ganhou as graças dos garimpos Europeus e venho vendo seu traço singular em destaque nos projetos dos mais renomados profissionais do mercado de arquitetura e interiores. Sua história é muito interessante, seguiu a trajetória do pai que tinha uma loja de móveis em São Paulo. Mas após o seu falecimento, fundou a empresa com dois irmãos. Seu desejo sempre foi levar o design de qualidade a uma esfera industrial, consequentemente mais acessível, através do uso de canais de ampla distribuição: as grandes lojas de departamento e lojas de bairro.

O que no contexto da época era extremamente revolucionário, já que o bom design era destinado exclusivamente a classes mais altas (já que os mó9veis eram extremamente artesanais e caros), aproximando o mercado de massas a um mobiliário mais sofisticado e à preços acessíveis. E essa fórmula se reflete até hoje na indústria moveleira, mostrando que o grande público tinha sim interesse na democratização e acesso ao bom design, revolucionando a oferta do mercado da época em todo o país. Mas sua inovação alcançou o mundo, e sua imaginabilidade e soluções em busca de novos recursos técnicos fez de Lafer pioneiro em suas criações.

Fonte: Dwell Magazine

A inovação veio da busca de soluções que não ficaram restritas apenas a materiais largamente utilizados na época, mas do desbravamento dos recursos técnicos de novos materiais que trouxeram uma imensa liberdade de criação, possibilitando esculpir novas formas. A exploração desses materiais teve início na combinação da madeira associada ao metal, exposto em seu primeiro design autoral, a poltrona MP-1. A poltrona, marcada pelo perfil mais esbelto mas mantendo a robustez do metal, substituiu as molas de aço tradicionalmente utilizadas na época por uma espuma de poliuretano apoiada em cintas de borracha, uma criação inovadora tanto em seu formato quanto uso de materiais integrados.

Poltrona MP-1 (fonte: casa claudia)

Percebe-se que desde seu primeiro trabalho é marcante o uso dos materiais com originalidade e ousadia. Para ele “cada projeto deveria refletir o estado da arte aplicado a ideias inovadoras”. E quando o design inovador se torna acessível, ele é também revolucionário. Em 1965 ele lança o sofá-cama MP-7, usando o mesmo conceito leve da poltrona MP-1. Reimaginando os sofás densos e pesados da época, seu produto, além de confortável, tornava simples a conversão de sofá em cama, sendo a primeira de muitas soluções vanguardistas.

Numa evolução contínua da exploração dos materiais, seguiu-se do uso costumeiro da madeira a sua integração com o metal, o investimento em novas formas de estofamento com a espuma moldada e o uso ousado do fiberglass para a criação de móveis. Essa reinterpretação do design contemporâneo à época, aliado a ideias originais, propiciou o surgimento de projetos únicos, muitos deles patenteados, garantindo a Lafer um design de identidade própria e muito a frente de seu tempo. Seu design inquieto e imaginativo se antecipou às tendências décadas antes de sua materialização. São exemplos os mecanismos reclináveis, móveis articulados e a busca de soluções mais econômicas no aproveitamento de espaços.

“Desde o primeiro móvel, eu tinha o foco em fazer linhas exclusivas, em vez de seguir o padrão. Então, registrava a patente dos desenhos. No início, chamávamos de Móveis Patenteados. Depois, enxugamos o nome para MP.”

Com uma visão pouco comum à época, quando patentes e cópias não eram um problema tão recorrente como hoje, Lafer já pensava à frente e estruturou sua empresa para alçar voos maiores. “Eu tinha um sonho de fazer design para o grande público, não para artistas ou elites. Era uma coisa de pouca expressão no Brasil. Nem sequer havia designers no país, porque na época não tínhamos escola de desenho industrial. Arquitetos vez ou outra abriam negócios pontuais. Eu, quando comecei a desenhar, já pensei em fazer um produto para baixar o preço, para o mercado de massa. Queria mesmo era partir para a industrialização em larga escala.” comentou em entrevista para a Revista PEGN .

Com formação em arquitetura, Lafer se voltou ao design industrial com criações que foram desde design de mobiliário a carro.  Em sua busca por inovação, ele foi pioneiro no uso amplo da fibra de vidro no cenário brasileiro. Seu uso em larga escala propiciou a produção de um carro esporte, o modelo MP LAFER, que se tornou o carro do James Bond no filme 007 Contra o Foguete da Morte. E novamente Lafer propiciava o acesso a um design de qualidade antes só desfrutados por aqueles que podiam comprar um carro importado.

MG TD 1952 (Foto: classic.digest.com)
Croquis MP Lafer (www.autoentusiastas.com.br)

“O amor dele pela indústria automobilística se reflete totalmente nos seus estofados, na ergonomia e articulações.” Diz Claudia Dodd, proprietária e diretora artística da Galeria Pé Palito Vintage, loja referência nacional em colecionismo e móveis garimpados, com clientes no mundo todo. Claudia também comenta que “A maior coisa que a gente pode falar sobre um artista é a respeito do pensamento dele”. E Lafer foi inovador não só no seu design e mecanismos, mas porque suas ideias representavam uma nova forma de se viver, sendo a fundação de novas tendências do mercado.

Sua ousadia e criatividade abriu caminho para que uma série de produtos fossem criados, e suas peças, desde a década de 60, habitam o imaginário popular. Embora sua carreira tenha mais de cinco décadas, o reconhecimento de sua importância na história do design nacional é recente no país. As suas peças mais antigas atingem hoje o status de Vintage, que representa a melhor safra de uma época, e são disputadas por colecionadores de todo o mundo. Mesmo sendo tão a frente de seu tempo, sua obra original ainda mantém em seu cerne elementos que propiciam um resgate não só histórico, mas de memória e afeto, fincando não só seu nome como patrimônio do design brasileiro, mas seus traços inovadores em todo mobiliário que nos rodeia, trazendo mais conforto e praticidade no nosso dia a dia.

Foto acervo pessoal, Pé Palito, Belo Horizonte
Foto acervo pessoal, Pé palito, Belo Horizonte

Seu trabalho já é a muitos anos reconhecido e aclamado no mercado internacional. O mundo valoriza nosso design, mas falta a nós um maior reconhecimento de nossas próprias joias e nos sensibilizarmos da importância de nossos artistas para nosso patrimônio e história. E sua obra tão sensível à população, faz uma releitura do que realmente significa luxo. Luxo era antes algo a se ostentar, característica que ainda permeia em nossa sociedade. Mas prefiro pensar que luxo, com sabiamente diz Isay Weinfeld, é ter em nossas casas aquilo que nos faz felizes. E Lafer fez da sua vida uma ode ao bom design, tornando-o acessível e nos dando o luxo de ter qualidade em nossas casas. Chegou nossa hora de condecorar o trabalho de quem é para nós fundação. Luxo é ter em nossa história mentes tão brilhantes, criativas e singulares como a de Lafer. Luxo é ter Sergio Rodrigues, Zanini Caldas, Lina Bo Bardi. Que conservar nosso patrimônio seja sempre resistência, até que a cultura seja o que a gente respira.

Foto acervo pessoal. Poltrona MP-37, Residência Manacás
Foto acervo pessoal. Registros do cotidiano
Foto acervo pessoal. Registros do cotidiano.
 Poltrona MP-081
Foto acervo pessoal. Registros do cotidiano.
 Poltrona MP-081 e Tulipa (Samoieda)

Fontes: