O moço que transforma frutas dos quintais dos clientes em sorvete

Há 5 anos, a Inventiva Sorvetes, em Belo Horizonte, aposta na economia colaborativa de um jeito diferente e cheio de afeto

Projeto Fartura | 22/03/2021

Somos caçadores de histórias que merecem ser contadas. Farejamos de longe uma boa ideia. O Fartura, maior plataforma de gastronomia do Brasil, é incansável em sua busca não só pelos sabores e ingredientes nacionais, como também pela gente, pelas pessoas que escrevem o enredo da nossa cultura alimentar. Foi assim quando nos deparamos com a Rita Medeiros que resolveu pegar as frutas exóticas e pouco conhecidas do cerrado e transformá-las em sorvete. Na sua Sorbê, em Brasília, mama-cadela, araticum, bacuri, cagaita e jenipapo são servidos em casquinha desde 2005.

Do Centro-Oeste para o Sudeste, aqui pelas bandas de Minas Gerais, em Belo Horizonte, Carlos Sia também anda fazendo sorvetes com frutas carregadas de história. Há 5 anos, ele criou o projeto Frutas de Quintal. “Nossa fábrica e loja ficam no bairro onde minha família sempre viveu e, muitos dos nossos clientes são também pessoas próximas, que gostam de uma prosa”, explica Carlos, referindo-se a Inventiva Sorvetes, localizada no Santa Efigênia. Um dia, um desses clientes bom-de-conversa falou do seu desejo de ver as amoras de seu quintal serem transformadas em um sorvete bem cremoso. Pronto. “Foi aí que tive a sacada e respondi que, como um gênio da lâmpada, poderia realizar seu desejo”, diz o mestre sorveteiro.

O quintal é um espaço particular, oásis no meio do caos de cidades grandes, lugar de brincar, criar memórias e chupar fruta no pé. Lugar de afeto e sonhos. E talvez por isso, acredita Carlos, os sorvetes do Frutas do Quintal são tão queridos pela clientela. A produção é pequena e, claro, com frutas da estação. Ora os clientes levam as frutas até Carlos, ora Carlos vai até os quintais dos clientes buscar a matéria-prima. Tudo é registrado nas redes sociais da Inventiva. A turma adora. O sorvete acaba rapidinho. 

Jabuticaba, acerola, graviola, jaca, abacate, amora, pitanga, pitaya, laranja, graviola e mexerica… Qualquer fruta vira gelados nas mãos de Carlos. E mais, essa troca rende um tanto de prosa boa de contar e ouvir. Seu Ezio, por exemplo, morador da Pampulha, é dono de um quintal rico, cheinho de árvores generosas. É de lá que saem as graviolas usadas pela sorveteria. Seu Ezio, sabedor das coisas da terra há mais de 80 anos, ensinou Carlos como manusear a fruta e até mesmo como transformar suas sementes em mudas. “É uma troca sensacional”, resume Carlos.

A ideia é simples e vem lá dos tempos de nossos tataravós. Escambo. Trocar o que se tem de sobra pelo que nos falta. No caso, fruta por sorvete. Mas o que a Inventiva faz vai muito além: transforma o escambo em uma importante engrenagem da economia colaborativa. Todo mundo ganha.  E, claro, assim como as frutas, projetos também amadurecem na época certa. O Frutas do Quintal já está em flor, rendendo frutos. Carlos tem usado a experiência adquirida com seu Ezio, o dono das graviolas, para transformar sementes e mudas. “Ainda não sei como será a distribuição. Mas a ideia é alimentar os quintais”, diz Carlos. Alimentar os quintais. Quintais, aquele lugar mágico, onde nascem frutas, brincadeiras e um tantão de sonhos.

Fotos: Acervo Pessoal

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