No jardim das rosas

Carlos Malab chega com sua nova coluna para o Cidade Conecta com escritos do livro "Era uma vez para sempre".

Carlos Malab | 16/08/2021

Numa manhã muito bonita, com o céu bem azul, vamos encontrar Vovó Angel trabalhando em seu jardim.

Sua paixão eram as rosas e ela cultivava as mais diversas espécies. Todos na pequena cidade admiravam o jardim, que possuía a mais variada coleção de roseiras. Era como se as rosas brancas, vermelhas e amarelas refletissem a harmonia daquele lar.

Vovó Angel dava especial atenção à grande roseira de rosas brancas quando notou, ao seu lado, a presença de Paula. Paula era a mais velha da turma. Tinha dez anos de idade e acabara de chegar de uma excursão promovida pela escola pública que frequentava. Ela tinha ficado três dias fora.

– Vovó Angel, senti muito a sua falta, e de todos de nossa casa em minha viagem!

– Nós também sentimos a sua falta, Paulinha!!! Está tudo bem?

– Sim… mas gostaria de lhe contar uma coisa…

– Fale, minha filha…

– É que aconteceu algo muito estranho durante o passeio… Quando chegamos à cidade, senti que conhecia muito bem o lugar. Os sítios históricos eram-me comuns na memória e eu sabia, de uma forma que não sei explicar, até o nome de algumas igrejas! Foi muito estranho… Depois disso, fomos hospedadas num colégio, que nos abrigou com muito carinho. Ao dormir, sonhei que vivia em um de seus grandes casarões, que era muito rica, que tinha lindos vestidos, mas que era muito chata: maltratava as pessoas e só gostava de festas!

Paula parou de falar por uns instantes. Estava com a voz presa na garganta e lágrimas nos olhos. Olhou para Vovó Angel e, como a viu muito serena, continuou:

– Fiquei muito assustada e não falei nada com as colegas. O que será que aconteceu, Vovó Angel? Como explicar esse sonho?

Vovó Angel olhou fundo nos belos olhos castanhos-esverdeados de Paula e pensou por breves instantes em como responder àquela questão.

Lembrava-se muito bem do estudo sobre a reencarnação. Como Deus era bom em permitir que retornássemos à Terra, numa outra vida, para que aprendêssemos e reparássemos nossas faltas passadas. Como era perfeito e justo o mecanismo do esquecimento das outras vidas! Somente assim podíamos começar de novo, sem revelar as nossas falhas anteriores. “Sim”, pensou ela, “a reencarnação é uma bênção. O que ocorrera a Paula foi muito especial e, certamente, um aviso e uma oportunidade para ela se conhecer melhor”.

– Paulinha, nós somos espíritos imortais e já vivemos muitas vidas! – falou Vovó Angel. – O que ocorreu com você está me parecendo uma regressão, na qual você se lembrou de fatos de uma vida anterior. Deus, às vezes, permite que isso ocorra para nos alertar de nossos deveres e necessidades. Sugiro que você medite sobre essa revelação e aproveite seus ensinamentos.

Paula olhou admirada para Vovó Angel e perguntou a si mesma se seria esta a explicação para os fatos da sua vida atual. Já havia chorado muito pensando sobre a sua condição de menina órfã, sem uma raiz familiar. Vovó Angel era um amor, mas ela sentia falta de um pai, de uma mãe, como tinham as outras crianças de sua escola. Sentia-se, muitas vezes, diminuída, e isso a fazia sofrer muito. Nesses momentos, pensava que Deus não era justo e se sentia abandonada. Agora começava a ver a sua vida por um ângulo diferente.

Vovó Angel percebeu que Paula estava interiorizando a lição e foi delicadamente montando um arranjo de rosas, caminhando por entre as muitas roseiras. Fez um lindo buquê, com rosas de variadas cores, tamanhos e aromas, e o ofereceu a Paula, dizendo:

– Minha filha, aproveite a lição. Quando sabemos seguir os desígnios de Deus nossas vidas se transformam em rosas, a exalarem maravilhoso perfume para a Eternidade.

Nesse momento, emocionadas, elas se abraçaram e deixaram algumas lágrimas rolarem pelas faces asserenadas.

A menina e a nobre senhora adentraram a casa, com a certeza de que todos nós colhemos o que plantamos, mas sempre sob a misericórdia de Deus.
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Fonte: MALAB, Carlos Henrique da Silva. Era uma vez para sempre. Pelo espírito Blandina. Belo Horizonte: Vinha de Luz Editora, 2007. p. 33-37.

Ilustração: acervo iconográfico da Vinha de Luz Editora da Casa de Chico Xavier de Pedro Leopoldo.

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