Mostra Internacional de Cinema de BH começa nesta terça

CineBH discute impacto das tecnologias de vigilância no cinema.

Da Redação | 28/09/2021

A noite desta terça-feira, 28, fica ainda mais especial para os amantes da sétima arte com o início da Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte (CineBH).

A 15ª edição do evento propõe um questionamento: quais os efeitos dessa atmosfera tecnológica de vigilância para a produção cinematográfica?

Pedro Butcher, um dos curadores do evento, observa que o cinema e as tecnologias de vigilância têm uma origem comum. “O cinema, quando nasce como esse fenômeno da modernidade na era da Segunda Revolução Industrial, gera um encantamento grande por reproduzir a vida em movimento. Os primeiros filmes nem eram narrativas. Eles tinham como objetivo cultivar esse encantamento. Era a fotografia ganhando movimento. Então, podemos dizer que esses registros da vida também inauguram uma nova possibilidade de controle e vigilância”, afirma Butcher

Ele observa que existem filmes antigos que refletem sobre essa relação e cita o exemplo de Tempos Modernos, obra de Charles Chaplin, que aborda a vigilância no trabalho. “Há um momento em que aparece uma imagem enorme do patrão repreendendo os operários”.

Apesar dessa relação histórica, o século 21 traz um aprofundamento da relação entre o cinema e os dispositivos de segurança. Os avanços tecnológicos e o desenvolvimento digital oferecem simultaneamente novas possibilidades de linguagem para o cinema e novas estruturas de vigilância.

“Surgem diversas brechas para a captura de informações privadas, que antes eram consideradas como um templo sagrado do liberalismo, das liberdades individuais. O 11 de setembro alimenta essa necessidade de informação para se evitar novos ataques”, diz Pedro Butcher. Os desdobramentos do ataque às torres gêmeas também coincidem com o momento em que se observa um crescimento dos sites de buscas na internet.

“É quando se inaugura aquilo que a filósofa Shoshana Zuboff chama de capitalismo de vigilância. É uma vigilância que não se dá mais apenas pela imagem e pelo som, mas também pelo algoritmo. Temos uma superacumulação de informações sobre o comportamento do indivíduo: deslocamentos, hábitos de consumo, gostos etc. E esses dados fornecem pistas para se tentar adivinhar o que esse indivíduo fará no futuro”, acrescenta.

Desde o início do ano passado, um novo evento mundial parece acelerar esse processo. Pedro Butcher considera que a pandemia de covid-19 intensifica a digitalização da vida. “Muito do trabalho passou a ser feito remotamente. Então, uma dimensão ainda maior das nossas vidas se digitalizou. E isso se reflete nos filmes”.

Seleção

A CineBH é organizada anualmente desde 2007 pela Universo Produção, que também é responsável pelas tradicionais mostras de cinema de Tiradentes e de Ouro Preto. O evento é apoiado pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo.

A 15ª edição levará para as telas, de hoje até domingo (3), um total de 90 filmes de 12 estados brasileiros e de outros 16 países. A programação inclui ainda debates, rodas de conversa e as atividades do 12º Brasil CineMundi, um encontro internacional que reúne cineastas, produtores e representantes da indústria mundial com interesse em coproduzir com o Brasil e conhecer pessoalmente projetos que, muitas vezes, não chegam até eles. Há atrações para todas as idades e, assim como já ocorreu no ano passado, toda a mostra será realizada em plataforma virtual, em decorrência da pandemia de covid-19.

Os 90 filmes estarão divididas em dez mostras. Uma delas reunirá exatamente os filmes que dialogam com a temática da edição: Cinema e Vigilância. Serão 12 obras, produzidas em cinco países diferentes: Brasil, Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos.

Segundo Pedro Butcher, a forma como o cinema e os dispositivos de segurança se relacionam é multidirecional. Há filmes que apenas se interessam pela possibilidade estética. O curador observa que existem obras que são quase integralmente narradas por meio de câmeras de vigilância. No entanto, ele afirma que a CineBH se interessa principalmente por trabalhos que se apropriam dos aparato de segurança de forma crítica.

Fonte: Agência Brasil
Foto: Divulgação – Universo Produção/ Cia Fusion