Metade luto, metade vida

Novembro é o mês da prematuridade, o novembro roxo. A minha história é mais uma entre tantas de mães, pais e filhos dilacerados pela difícil vivência dentro de uma UTI infantil.

Viviane Possato | 13/11/2020

Amor de Mãe. Eles chegaram em uma madrugada de lua cheia.

Desde o início da minha gravidez, eu sabia que meus filhos ficariam dentro de mim menos tempo do que a natureza exige. Meu corpo miúdo não dava conta de maturar quatro bebês.

Eu e o Joaquim nos encontramos por apenas 7 meses e alguns poucos segundos. Ele não resistiu à prematuridade. Foi embora antes de preencher meu colo. O choro de Vitor, Enzo e Francisco trouxe esperança… mas eles foram levados pra incubadora antes que eu pudesse sentir o cheiro da cria.

A prematuridade tirou de nós o direito natural do acolhimento. Fomos apartados. Não nos sentimos, não nos cheiramos, não nos olhamos, não nos acolhemos.

A primeira vez que vi meus filhos foi pelo vidro de uma incubadora. Mas não houve reciprocidade, nenhum deles me enxergou. Os olhos estavam tampados por curativos que impediam nossa conexão pelo olhar. Nossas peles não se tocaram, também não misturamos nossos cheiros. Meus bebês eram frágeis demais para sentir a força do meu amor. Enquanto meu leite escorria dentro de mim, meus filhos tinham as bocas vedadas por respiradores que garantiam a vida enquanto o pulmão aprendia a respirar.

Só nos restava um dos sentidos: a audição. Em voz alta, mas nem sempre firme, rezei, cantei, verbalizei sonhos e rotinas numa tentativa quase desesperada de fazer com que meus filhos não sentissem o abandono.

Foram longos meses em uma UTI infantil, testemunhando a luta pela vida. Vitor perdeu a batalha. Eu perdi, de novo, o chão. Não adiantou ajoelhar diante de Nossa Senhora Aparecida, não adiantou sonhar, não adiantou implorar a Deus. Meu segundo filho morreu antes mesmo de ser meu e foi embora levando minha fé.

Chovia no dia em que enterrei o Vitor. Naquela segunda-feira não tive forças para proteger meus dois filhos que ainda viviam nas incubadoras frias de um hospital. Só que o luto não era uma opção naquele momento. Precisei ficar de pé porque Enzo e Francisco ainda enfrentavam duras batalhas.

Aos poucos, dor e alegria se acomodaram no meu peito. Estranhamente, a tristeza pulsava dentro de mim com a mesma força do meu sorriso. Francisco e Enzo deixaram o hospital depois de três meses, quando, finalmente, entendi a completude do amor de mãe.

Novembro é o mês da prematuridade, o novembro roxo. A minha história é mais uma entre tantas de mães, pais e filhos dilacerados pela difícil vivência dentro de uma UTI infantil. O tempo nem sempre traz as explicações que buscamos, mas é um poderoso acolhedor das dores.

Eu? Serei eternamente incompleta. Metade de mim carrega ausência. Mas hoje eu sei que a minha outra metade, a cheia, me sustenta e me faz inteira.

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