Livro convida leitor a conhecer a realidade por detrás de “muros invisíveis”

Empreendedora social Camila Chiari Pentagna Guimarães conta sua experiência durante projeto de ajuda a moradores de comunidades de Belo Horizonte, cuja situação social se agravou por causa da pandemia.

Da Redação | 18/12/2020

Camila Chiari

“Outros horizontes: O impacto da Covid-19 em comunidades de Belo Horizonte” é o livro da empreendedora social Camila Chiari Pentagna Guimarães que será lançado no próximo dia 21 de dezembro. A obra convida o leitor a conhecer a realidade que acontece por detrás dos “muros invisíveis” que construímos ao nosso redor.

“São registros do que aconteceu na vida de nossos heróis anônimos durante este período, que será para sempre lembrado como um dos mais difíceis da história de nosso planeta”, afirma a escritora.

Há mais de 10 anos em atividades do terceiro setor, Camila Chiari, em meio ao caos e ao terror criado pelo vírus realizou em suas redes sociais uma campanha para doação de marmitas. 

“Eu e meus amigos conseguimos entregar cinco mil marmitas em 20 comunidades espalhadas por Belo Horizonte. Foi a partir desta ação que nasceu a ideia do livro, do meu desejo de descrever em palavras a realidade de comunidades que sofreram o impacto do vírus e suas consequências ramificadas em praticamente todas as áreas da vida. Um olhar leigo de quem conheceu os sentimentos que estão por trás daqueles que muitos só conhecem por manchetes de jornal “, explica.

Relatos

A escritora conta que após “transpor o muro invisível que criamos”, conheceu pessoas, que, mesmo passando por dificuldades acachapantes e ainda piores com a pandemia, contaram suas histórias de muito sofrimento, mas também de superação.

Nos 14 capítulos o leitor irá conhecer muitos personagens não tão distantes em distância, mas da realidade de muitos.

Resiliência

É o caso de Jaqueline Rodrigues de Souza, moradora da comunidade do Morro das Pedras. Ela trabalhava com transporte escolar e com o fechamento das escolas perdeu sua fonte de renda. Então, transmutou o próprio sofrimento e preocupação em uma ação solidária.

Criou uma banca de alimentos onde os próprios moradores ofertam o que têm e recolhem o que necessitam. Desta forma todos se ajudam. “Até nas coisas ruins tiramos proveito para as coisas boas”, relatou Jaqueline.

Já Nathalia Beatriz, quilombola, filha de Patrícia, nascida e criada na Comunidade dos Arturos, um dia, quando criança, ao chegar da escola, disse para a mãe que queria “tomar banho de leite para ficar branca”.

Ela falou que a amiga a chamou de preta do cabelo feio. Bia, como é carinhosamente chamada pela mãe, aprendeu que não devemos criar ressentimentos. Não se abateu mais.

Agora, aos 21 anos, cursando faculdade, não liga para as frases racistas que continua ouvindo.

“A pandemia não distinguiu cor, classe social, nada. Morrem brancos, pretos, pobres, milionários. O coronavírus veio para o mundo, não foi só aqui no Brasil, e veio para que parássemos um pouco. Você pode ter todo o dinheiro do mundo, mas o seu dinheiro não vai te salvar. Às vezes, eu não tenho nada e eu vou me salvar”, observa Bia.

Preocupação

Outro relato descrito no livro é do eletricista aposentado Walter Pinto Godoi, morador do Morro das Pedras. Viúvo, se preocupa muito com a saúde da mãe com mais de 90 anos. Ele só sai de casa para fazer o que for estritamente necessário. “Rezo todos os dias para Deus ajudar pra ver se a gente passa essa fase ruim”, confia.

O maior medo dele é de não poder velar e enterrar os seus. “Não tem tanto buraco para enterrar o tanto de gente que está morrendo, não. Nem sei como é que eles fazem”, acredita.

Sem preconceitos

Na obra, há ainda a história de Alexandre Gomes da Silva, o “Xandão” da comunidade Barragem Santa Lúcia. Ele insiste que a sociedade veja os moradores dos aglomerados como pessoas que têm coração e sentimentos e pede para que os enxerguem sem preconceitos, acreditem e tenham esperança em relação ao futuro dos moradores.

Segundo Alexandre, quem está de fora pensa que é loucura quem mora aqui dentro.

“Acham que a gente é atrasado no tempo. Aqui tem universitários, tem pessoas formadas, tem empresários. Pessoas que têm uma vida boa e nem querem sair daqui. Porque aqui todo mundo conhece todo mundo. Se você viajar e dar um ‘toque’ no seu vizinho, ele sabe quem é estranho. Aqui a gente tem essa segurança. Moro aqui há 10 anos e não troco por outro lugar”, afirma “Xandão”.

Já Dona Lichida, da comunidade São Gabriel diz que se sem o coronavírus a vida já era difícil, agora está pior. “Antes, a gente tinha pelo menos liberdade para sair, até mesmo para chorar em outro canto, agora não podemos mais. Estamos presos em uma situação que já era deprimente. A gente vive oprimido aqui dentro”, lamenta.

Construção de pontes

Na opinião da escritora Camila Chiari, devemos procurar derrubar os muros que nos separam e passemos a construir pontes e nos conduzir ao outro.

“Esta obra foi direcionada àqueles que se interessam pelo terceiro setor, e espero que ter alcançado também aqueles que agora passarão a se interessar. Alegro-me em dizer que em nossa jornada o caminho não foi só de ida, pois uma vez que vivemos uma real experiência de troca, é impossível voltar para o ponto de partida”, ressalta.

Para ela, seguramente em algum momento, a humanidade vencerá o Covid-19, mas outros inimigos citados ao longo do livro continuarão a fazer vítimas diante do silêncio da sociedade.

“Que a nossa voz ecoe a favor daqueles que não são ouvidos. Que não sejamos alheios ao sofrimento do outro”, acredita Camila, que já está em fase de pesquisa sobre o segundo livro, sem abandonar os outros projetos do terceiro setor.

capa do livro
Fotos: Arquivo Pessoal Camila Chiari

SERVIÇO

  • Lançamento: 21 de dezembro
  • Obra: “Outros horizontes: O impacto da Covid-19 em comunidades de Belo Horizonte”, de Camila Chiari
  • Para comprar:  www.camila.chiari.com.br
  • Preço: R$58,00

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