Espiritualidade: textos sobre Barnabé

O Cidade Conecta preparou lançamentos, periódicos, com uma série de escritos sobre Barnabé, um dos primeiros trabalhadores que se agregaram integralmente à causa cristã.

Carlos Malab | 24/03/2021

Recordações de um discípulo

No dia seguinte à chegada de Simão Pedro à instituição do Caminho de Antioquia, Barnabé começou a apresentar ao apóstolo do Cristo as tarefas que eram realizadas na casa e os trabalhadores que nelas estavam envolvidos.

A alegria no ambiente era enorme por terem, debaixo do mesmo teto, alguém que convivera de perto, por tanto tempo, com o Mestre.

Barnabé percebeu que, para melhor aproveitar a presença de Simão Pedro, teria de organizar entrevistas e pedir para, somente no momento oportuno, fazerem consultas ao antigo pescador.

A comunidade de Antioquia era bem diferente da de Jerusalém. Não estabelecia restrições aos não judeus.  Estes podiam participar livremente de todas as atividades. Com frequência, ocorria a manifestação dos mentores espirituais, chamados de Anjos do Senhor, através de portadores de dons especiais. Havia também aqueles que se aproximavam da casa por reconhecerem as suas tarefas de apoio aos necessitados de toda ordem e por admirarem a dedicação e renúncia dos seguidores de Jesus. Muitos dos atendidos e curados faziam crescer a fama da igreja, que necessitava sempre de doações. A ajuda material aparecia, e assim a casa cristã de Antioquia podia ocasionalmente contribuir para a casa de Jerusalém, que sempre necessitava de muitos recursos, devido à sua dimensão de trabalhos.

Simão Pedro manifestou a Barnabé o interesse em conhecer os principais doadores para as atividades da casa. Desejava agradecer o auxílio deles e informá-los de quanto bem estavam proporcionando.

Era preciso agradecer a quem quer que fosse pela colaboração e pelo desprendimento a benefício do próximo. O agradecimento é o sorriso do amor.

Conhecendo o desejo de Pedro, Barnabé convidou Isaías, rico comerciante Judeu, doador de muitos bens amoedados e de produtos de alimentação, tais  como cereais e frutas, para vir encontrar-se com o visitante tão amado.

-Isaías, meu caro, este é Simão Pedro, de quem tanto lhe falamos. Ele deseja conhecê-lo.

Isaías, silencioso, aproximou-se do antigo pescador. As lágrimas corriam na sua face, demonstrando as emoções que brotavam do seu coração.

-Simão Pedro, a minha alegria é muito grande em conhecê-lo. Quero dizer-lhe que, se não fosse esta casa, a minha adorável filha Ana não estaria entre nós. Tenho a certeza de que foi o profeta Nazareno que a curou. Ela estava à beira da morte, desenganada pelos médicos, e foi neste recinto que tudo mudou. No início, fui relutante em vir e pedir ajuda, mas minha esposa insistiu e então vim. A bênção da cura de Ana marcou-me bastante e tenho agora fé no poder do Mestre e no de seus discípulos.

-A alegria e o agradecimento são todos nossos meu caro Isaías, suas doações estão auxiliando muitos necessitados, e oramos ao Alto pela sua saúde e a de sua família. Sou portador da gratidão de nossa pequena casa em Jerusalém.

-Fico pensando, replicou Isaías, o quanto deve ter sido maravilhoso conviver com Jesus. Às vezes, questiono-me por que razão não fui até à Galileia, quando soube por alguns viajantes, anos atrás, acerca dos milagres que Ele realizava. Sim Simão Pedro, os feitos de Jesus chegaram aqui em sussurros, que foram abafados pela falta de fé e a incredulidade. Comentou-se aqui sobre as curas e a multiplicação de pães e peixes. Na época, os relatos eram recebidos em tom de deboche e incredulidade. Mas agora, tardiamente, vejo que era tudo verdade e que perdi a oportunidade de vê-Lo pessoalmente.

Simão Pedro, que tudo escutava paciente, sentia que, em cada comentário de Isaías sobre Jesus, a sua mente voltava no tempo, trazendo recordações de vários detalhes e de grande significado pessoal.

Quando Isaías silenciou, Simão Pedro tomou a palavra, sob os olhares atentos de Barnabé e dos que o cercavam, e falou em tom baixo mas claro:

-Isaías, nós mesmos que acompanhávamos o Mestre não percebíamos com toda a profundidade a sua missão. No começo, impressionávamo-nos com os seus milagres, a sua fé e forma simples, meiga e amorosa de abordar todos os problemas com que nos deparávamos a todo o instante. Ele não julgava ninguém e a todos auxiliava, sem a menor dúvida de como agir no bem. Muitas vezes, sentia-me como se estivesse vivendo sem entender o que se passava. Quantas curas, quantas pessoas ajudadas, desde o mais simples aldeão às personalidades de maior autoridade. Só muito depois, comecei a compreender um pouco da profundidade das palavras que Ele pronunciava.

-Simão Pedro, pode explicar-nos por que razão só muito depois captaram o que Ele ensinava? Perguntou Isaías.

-É difícil explicar, mas lembro-me, por exemplo, que passamos por uma videira carregada, cujos cachos de uvas eram tão pesados que a planta dobrava-se toda, quase tocando o chão, e o Mestre nos disse, então, que aquela simboliza a árvore da vida, acrescentando que quem deseja se elevar deveria se dobrar. Ele já havia dito isto em outras ocasiões e não havíamos entendido muito bem. Poderíamos ser respeitados como seguidores dos ensinos do Mestre, questionava-me, se me rebaixasse? De que elevação Ele falava? Não valorizavam mais, no mundo, aqueles que tinham conhecimento, posses e poder? Hoje, vejo de forma diferente. Noutra ocasião, Jesus disse que Ele era videira verdadeira, o Pai o agricultor e os seus discípulos os ramos, e por isso deveríamos amar-nos uns aos outros como Ele nos amou (1). A árvore torna-se flexível para dar o seu fruto e aproxima-se do solo para que sua semente possa perpetuar a espécie e ter o resultado esperado de disseminação. Assim, somos nós mesmos, que temos de nos libertar do orgulho e do egoísmo, que enrijecem a nossa alma, e não nos permitem ver a necessidade do outro e amá-lo como ele é. Não devemos ficar distantes da realidade e isolados do mundo, na exclusividade pessoal, que não nos eleva a Deus, mas antes nos aproxima das sensações escravizantes da carne.

Simão Pedro silenciou, e parecia que seu pensamento ia longe. Ninguém o interrompeu e podia-se ouvir o vento, que, lá fora, agitava as árvores. Após alguns minutos, ele voltou a falar:

-O Mestre vivia num mundo imensamente superior ao que podemos conceber. Suas palavras calavam todos os que, como víboras, chegavam perto Dele para o atacar. Ele falava sem ferir ou ameaçar alguém. Ele dizia que não vinha trazer nada mais do que a mensagem do nosso Pai que é Deus.

Barnabé percebeu que era oportuno trazer a questão do apego aos bens terrenos, pois o tema era recorrente nas conversas com Isaías e outros colaboradores, e perguntou:

-Irmão Pedro, o que o Mestre falava sobre os bens terrenos? Como os utilizar bem?

-Irmão Barnabé, nosso Mestre Jesus não era contra os bens terrenos, ele nos ensinava que são oportunidades que Deus nos dá para promovermos o progresso, e devolvermos ao Pai os seus empréstimos com os juros do benefício a favor da sociedade e do próximo. Ao jovem, com apego aos bens, recomendou que os doasse aos pobres e o seguisse se quisesse entrar no reino de Deus. Aos homens, que precisavam crescer com o benefício do trabalho e da dedicação, recomendou que não enterrassem os seus patrimônios, devolvendo ao Pai apenas a totalidade que Dele receberam, mas que se esforçassem por multiplicá-los a três por um ou mesmo a dez por um, e assim serem merecedores da morada celestial. Os recursos que temos são empréstimos de Deus, que um dia teremos de dar contas da nossa administração. Àquele que constrói celeiros para os guarnecer e pensar só em si, em sua abastança e saciedade, dava o recado de sua insensatez. Explicava que o homem que desfrutasse do repouso egoístico tão esperado, não teria a sua alma chamada para junto de Deus. E que todo o esforço para acumular os bens materiais para seu próprio gozo não lhe traria proveito no reino dos céus.

-Simão Pedro, vou guardar as suas palavras no fundo do meu coração, e espero que um dia possa ver Jesus e receber a sua bênção. Comentou o abastado contribuinte.

-Irmão Isaías, Jesus está sempre ao lado daqueles que auxiliam o próximo e cultivam o ato de caridade, não como uma mera demonstração de vaidade e orgulho, mas sim como uma obrigação para com Deus e o próximo. Se deseja encontrar-se com Jesus, permaneça ao lado dos abandonados e sofredores do mundo.

Isaías fez o sinal de compreensão e, sentindo que já havia tomado demasiado tempo do humilde ex-pescador, agradeceu e despediu-se emocionado com o coração, profundamente tocado por tudo o que havia sido dito.

Barnabé, aproveitando o momento, convidou o querido Apóstolo a visitar o alojamento que abrigava os idosos abandonados na doença e por não terem para onde ir.

O pequeno grupo, que acompanhava a conversa, dispersou-se, guardando a impressão de que muito mais poderia aprender com as recordações do discípulo, que fora chamado de pedra da edificação pelo Senhor.

  •  João 15:1-12

Desenho/Foto: Pedro o Apóstolo por Guignard

Psicopictografia pela Médium Cleide,  Fraternidade Cristã Francisco de Assis (FECFAS).

Confira os textos da coluna sobre Barnabé assinada por Carlos Malab (aqui)

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