Espiritualidade: textos sobre Barnabé

O Cidade Conecta preparou lançamentos, periódicos, com uma série de escritos sobre Barnabé, um dos primeiros trabalhadores que se agregaram integralmente à causa cristã.

Carlos Malab | 29/12/2020

Cada um deve fazer a sua parte para um mundo melhor

O inverno, com o seu vento frio e cortante, chegara em Antioquia e ninguém conseguia ficar insensível ao sofrimento que ele intensificava na vida de alguns pobres moradores das redondezas.  

A mudança da estação aumentava as tarefas na casa de auxílio cristão estabelecidas na cidade.

Estando Barnabé no trabalho de seleção de donativos, na companhia de Jonas, o rapaz lhe fez a seguinte pergunta:

-Irmão, fico me perguntando o porquê de as pessoas, que têm muitos recursos e posses, não se preocuparem em ajudar os que passam necessidade. Não poderiam eles amenizar o sofrimento de muitos? Porque Deus, que tudo vê, permite tanta injustiça e dor? Somos oprimidos por forças do estrangeiro, homens e mulheres vivem na pobreza e muitas vezes na escravidão sem nenhuma esperança.

A questão exposta por Jonas não era uma surpresa, pois em outras ocasiões a mesma dúvida já brotara em conversas na instituição.

Barnabé olhou para Jonas demonstrando que entendia a sua questão e não tinha qualquer rejeição em tratar do assunto. Como homem experiente nas dificuldades do mundo, sabia que a resposta não era simples. Ele mesmo já despendera tempo procurando respostas para tanto sofrimento que via a sua volta. Pensou nos ensinamentos de Jesus, e decidiu que somente expondo as palavras do Mestre poderia mostrar como encarava o assunto.

-Irmão Jonas, suas reflexões são muito boas e oportunas. Ao nosso derredor, vemos sim muitas dores e sofrimento, mas também presenciamos muito amparo e ajuda. A nossa própria casa é um exemplo disso. O que seria de nós se não existissem as almas generosas que aqui aportam para nos auxiliar a fazermos algo pelo nosso semelhante? O mundo, antes da vinda de nosso Mestre, carecia da chave para a resolução dos problemas da fraternidade e a minimização da dor dos mais necessitados. Não podemos nos isentar e culpar Deus pelo que ocorre. Este é o caminho mais fácil para ficarmos perdidos em nossas lamentações. O Pai dá a todos, sem exceção, as oportunidades de crescimento espiritual. Você já nos ouviu comentar sobre o assunto. Não é nossa diretriz a necessidade de amarmos ao nosso próximo como a nós mesmos? Que esta atitude transforma todo o mundo, pois temos a certeza de que todos somos irmãos, filhos do mesmo Pai?

-Sim, irmão, agradeço pela sua paciência em me explicar. O que me entristece é ver tantas pessoas, em nossa sociedade, que não conseguem ver a realidade do espírito como nós já conseguimos entender.

 Enquanto Barnabé ouvia as considerações de Jonas, lhe veio à mente uma parábola que lhe havia sido transmitida, em Jerusalém, por Pedro, a qual o ajudaria a entender o que acontecia no mundo, e qual seria o desfecho para o problema.

-Irmão Jonas, nosso Mestre, quando tratava de assuntos muito complexos, que exigiam uma maior maturidade espiritual para o entendimento, utilizava uma narrativa breve, usando a comparação e a analogia, como você já conhece pelos nossos estudos. Uma, em particular, me vem à mente para trazer esclarecimento.

Barnabé parou por alguns instantes, observando a total atenção do jovem, e relatou:

-Pedro nos contou que, certo dia, Jesus começou a falar das realidades do reino de Deus, assentado em um barco, enquanto a multidão na praia, a curta distância, o ouvia. Ele disse então que o reino dos céus é semelhante a um homem que semeou a boa semente no campo. Enquanto todos repousavam, veio o seu inimigo e semeou joio no meio do trigo e foi embora. Depois de algum tempo, quando o trigo começou a dar semente, os servos perceberam que havia aparecido o joio. Os servos foram procurar o proprietário para lhe relatar o ocorrido e tentar saber porque aquilo estava acontecendo, e ele lhes disse que era a obra de um inimigo. Os servos propuseram arrancar o joio, mas o senhor disse que não e recomendou que aguardassem o tempo da colheita, que o deixassem crescer, para não correr o risco de tirar o trigo e o joio juntos. Na época da colheita, então, deve colher-se o joio, separá-lo e queimá-lo e ficar com o trigo para o celeiro. (1) Percebeu irmão Jonas o que Jesus ensinou?

-Não, irmão, estou confuso.

-Vejamos, o Mestre comparou o mundo com um campo semeado, nele aparecem pessoas que ainda não despertaram para dar o bom fruto, só pensam na sua satisfação pessoal. Estão doentes do espírito. Cada um deve fazer a sua parte para um mundo melhor. Se assim não o fizermos, seremos como o joio que terá de ser retirado, pois não tem proveito. Por outro lado, se estamos de acordo com a prática das recomendações do Senhor, vamos seguir o bom caminho na direção da casa do Pai. A nossa renovação interior é sempre possível, mas passa pela disciplina, fé, instrução, pelo trabalho e amor. Não nos cabe julgar os outros e exigir mudanças neles. 

Percebendo que o jovem precisava visualizar casos práticos, para entender melhor o ensinamento, Barnabé decidiu lembrá-lo de algumas experiências ocorridas ali mesmo e perguntou:

-Você se lembra do caso de Josué?

-Aquele que andava com muletas e foi curado?

-Ele mesmo. Quando ele chegou na nossa instituição só reclamava. Praguejava por causa da ferida em sua perna e da sua infelicidade. Começou o tratamento com o irmão Demétrius, sem ter fé na melhora. Aos poucos, porém, vendo a atitude dos que o cercavam, foi compreendendo que precisava mudar de comportamento. Notou a aceitação da dor demonstrada por Hildeu, que havia perdido parcialmente os movimentos de um lado do corpo, mas mesmo assim se locomovia sem praguejar contra o seu destino e sem desânimo. Hildeu, com dificuldade, mas sem se sentir inválido, auxiliava os que chegavam pela primeira vez ao recinto dos doentes, com gentileza e bom humor. Viu como Clélia, mesmo com o filho acamado, distribuía a água da oração e a alimentação.  Constatou que o irmão Demétrius trabalhava sem descanso, só parando quando o último do recinto fosse atendido. Percebeu que aqui ninguém esperava pelos mais favorecidos da vida para buscarem a sua melhora e aceitavam todos os que apareciam sem pré-julgamento. Vendo tudo isto, Josué mudou sua atitude, e hoje anda sem as antigas muletas ajudando onde pode.

O jovem Jonas começou a entender a necessidade da transformação íntima na forma de visualizar e agir na vida. Desejando absorver mais do ensinamento perguntou:

-Irmão, neste caso onde está o joio e o trigo?

-Não é difícil de identificar, falou Barnabé, todo aquele que dá bons frutos pela sua dedicação e trabalho à família e ao próximo é representado pelo trigo. Aqueles que usufruem os bens da terra, sem darem resultados para o semelhante e vivem exclusivamente pensando e agindo no beneficio próprio, representam o joio.

Parou por alguns instantes, como se estivesse com o pensamento distante e continuou:

-Veja que Jesus não condenou a riqueza e nem exaltou a pobreza, mas explicou que aqueles que não dão bons frutos, onde estiverem, estão atados ao destino que criaram para si mesmos, e que promoverá a transformação do ser pelas necessidades e pela dor. Como vimos, pelos pequenos exemplos que citei, é preciso ainda deixar crescer junto o joio e o trigo na nossa sociedade para que, através do contraste, se identifique quem realmente está de cada lado, e aqueles que estejam do lado das atitudes imprestáveis possam ter a oportunidade da redenção.

-Que beleza de ensinamento, irmão, vou guardá-lo por toda a minha vida.

-Sim, irmão Jonas, das palavras do Divino Mestre nada se perde, tudo é essencial.

Enquanto travavam o diálogo, não pararam de trabalhar na separação das doações. 

Aproximou-se deles uma distinta senhora acompanhada de duas mulheres que tinham atitude de suas servas. Uma delas, dirigindo-se aos dois, falou agindo como uma intérprete:

 -Senhores, minha patroa é estrangeira e seu marido está doente, impossibilitado de viajar. Eles estão residindo, transitoriamente, no porto de Selêucia, onde a sua embarcação aportou. Ela tem pago a vários médicos para curarem o esposo, mas até o momento não tem tido sucesso. Soubemos que nesta casa fazem-se maravilhas e decidiu vir aqui pedir-lhes atendimento. Ela vai remunerar muito bem a ajuda e deseja antecipar este alforje de moedas.

Barnabé, com o conhecimento das dores do mundo que se abatem sobre todos os níveis sociais, respondeu com o costumeiro carinho e solicitude:

-Minha irmã, transmita a sua patroa que ela é bem-vinda aqui e que teremos o prazer em ajudá-la. Peça que ela não considere uma ofensa, mas não podemos aceitar assim a generosa oferta amoedada. Aqui, nos reunimos para seguir os ensinos de nosso Senhor e Mestre Jesus, que nos ensina a tratar a todos como irmãos e a fazer isso de forma desinteressada sem recompensas materiais. Deixe-nos a informação de como podemos encontrá-los. No prazo mais curto possível, estaremos lá para fazer o que estiver ao nosso alcance.

Após insistir sem sucesso na entrega do pagamento antecipado, a senhora retirou-se, espantada com a atitude da casa, mas confiante no recebimento da ajuda que precisava.

Barnabé e Jonas se dirigiram ao interior da instituição, em busca de Demétrius, visando programar uma visita ao doente em Selêucia, na certeza que agindo desta forma seguiam os ensinos do Senhor. 

  1. Mateus 13:24-30

Confira os textos da coluna sobre Barnabé assinada por Carlos Malab (aqui)

Foto: Psicopictografia pela Médium Cleide – Espírito Yoshi – Fraternidade Cristã Francisco de Assis (FECFAS)

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