Espiritualidade: textos sobre Barnabé

Chegamos ao final da publicação de uma série de 31 textos em torno de José de Barnabé, iniciada em 13 de Abril de 2020, no Cidade Conecta. Em breve, uma nova etapa de textos será publicada.

Carlos Malab | 12/05/2021

Todos os cristãos são chamados ao testemunho da fé

A exposição da noite era esperada com grande expectativa na pequena assembleia, reunida na casa cristã de Antioquia.

Normalmente, os estudos dos textos, produzidos por Levi, eram realizados no salão e destinados a todos que desejassem participar. Nesta noite em particular, atendendo ao pedido de alguns trabalhadores mais assíduos e dedicados da casa, Barnabé decidira iniciar um núcleo de estudos e comentários, com o objetivo de formar colaboradores para as tarefas de amparo e divulgação da palavra do Senhor, sem prejuízo das tarefas regulares.

Num pequeno recinto, destinado à separação dos alimentos, vamos encontrar, além do conhecido instrutor, três jovens muito interessados na explicação dos ensinos do Cristo. Eram eles:

Theo, filho de comerciante de vinho, cujo pai fora curado nos serviços de tratamentos na casa.

Laertes, muito jovem, de uma família de oleiros. Sua mãe solicitou que o integrassem nas tarefas, por admirar profundamente os ensinos cristãos.

 Ace, jovem de provável origem macedónica, que, quando criança, vagueava abandonado, esmolando no mercado junto ao Orontes, e fora recolhido por camponeses caridosos, deixando-o sob os cuidados da instituição.

O ambiente contava com iluminação fraca, que provinha de insuficientes lamparinas, mas sem constituir obstáculo à reunião. O clima de elevação espiritual era percebido por todos, que se sentiam embevecidos de paz. O cansaço das árduas tarefas do dia, ali, parecia desaparecer como por encanto.

Barnabé, após fazer uma singela e emocionante oração, pedindo a inspiração do mais alto, iniciou sua exposição, perguntando:

-Nos estudos que temos realizado sobre os ensinos do nosso Mestre o que mais chama a atenção de vocês?

Os jovens entreolharam-se curiosos e, pela liberdade dada de se pronunciarem, cada um respondeu a seu tempo.

-Irmão, admiro muito com as curas feitas pelo Mestre, respondeu Ace.

-Sempre ocorrem à minha mente os milagres que o Senhor realizou, disse Theo.

-Encanta-me o poder supremo de Jesus sobre os agentes do mal, completou Laertes.

Barnabé contemplou os três com atenciosa expressão no olhar e, com sua costumeira capacidade de transmitir ensinamentos e estímulo, afirmou:

-Uma beleza o comentário de vocês. Gostei muito dos aspectos que vocês levantaram. São todos muito expressivos no despertar da humanidade tão presa aos interesses comuns da vida. Também os exalto, mas sabem o que mais me chama atenção?

Fez-se um breve silêncio no ambiente, criando-se a expectativa sobre qual seria a resposta. Percebendo o olhar ansioso dos presentes, Barnabé continuou:

-É a confiança de Jesus naqueles que o seguiam, que presenciavam as suas ações, nos homens e mulheres simples que o cercavam. Hoje, após tudo o que aconteceu e persiste, fico surpreendido por Ele acreditar em criaturas como nós, tão ignorantes das questões do espírito. Paralelamente às curas, aos milagres, ao domínio sobre os agentes do mal, a todos os atos de bondade e perfeição moral, está a Sua tarefa de educar e a insuperável fé que mais cedo ou mais tarde seus conceitos revolucionários e suas atitudes seriam postas em prática pela ainda frágil comunidade de seus seguidores.

Após breve intervalo prosseguiu:

-Hoje, selecionei um ensinamento do Senhor, em que Ele afirma que todos os seus adeptos e seguidores são o sal da terra e a luz do mundo. (1) Já ouviram a leitura destas palavras por Ele reveladas?

Os jovens não se pronunciaram, ficando evidente que não conheciam o texto, pelo silêncio de todos.

-Percebem a profundidade e a beleza desta afirmativa feita aos seus discípulos e à multidão que O cercava?

-Irmão, perguntou Theo, se detemos essa capacidade, porque erramos tanto?

-Boa pergunta, irmão Theo. No meu entendimento, creio ser o fato de ainda não termos despertado para a realidade da vida espiritual, a qual é a única, a eterna, a que verdadeiramente importa. Nosso apego às necessidades materiais é efémero, o nosso real destino é alcançar a felicidade atingida pelos que vivem em sintonia com Deus. Possuímos internamente todos os recursos da perfeição intelectual e moral, o que precisamos fazer é por em movimento no bem do próximo, esta enorme capacidade que o pai depositou em nós.

-Mas como fazer isto, irmão? Não me vejo com estes recursos – perguntou Laertes.

-Com frequência, também me questiono acerca do mesmo, pois, vejo-me cheio de imperfeições e fraquezas. No entanto, as palavras de Jesus são muito claras, dentro de nós, reside o potencial do sal que tempera e o da luz que pode abrir e iluminar caminhos. Podemos ser, mesmo com nossos defeitos, instrumentos para a obra de Deus. Ele usa de todos os recursos disponíveis para auxiliar os homens.

Barnabé parou de falar por alguns segundos e, percebendo que necessitava de ilustrar com exemplos práticos, decidiu narrar um evento ocorrido com ele.

-Vocês conhecem a grande pedra próxima do rio Orontes, antes da sua entrada na cidade?

Percebendo o aceno de cabeça afirmativo dos rapazes, continuou:

-Pois bem, lá ocorreu um episódio comigo, que vou descrever para confirmarmos que o Pai conta com a nossa ajuda. Caminhava contornando o rio, para ir ao sítio do velho Jair buscar uma doação de leite das suas cabras, destinada aos nossos doentes. Não era o meu caminho habitual, mas senti vontade de passar por aquela área para apreciar o rio.  Quando cheguei ao local, notei que um rapaz de fisionomia muito triste estava na beirada da pedra, de olhar fixo na correnteza, forte e perigosa. Consegui aproximar-me e, após iniciar uma conversa, ele revelou-me que estava prestes a se atirar na água, pois queria terminar com os seus problemas. Foi a providência divina que me usou para esclarecer o desalentado irmão de que havia um outro caminho a seguir. Que nunca devemos nos desesperar com os problemas que assolam o nosso destino, pois os anjos de Deus sempre velam por nós, e que a morte não extingue os problemas, a morte, na realidade, não existe, porque a vida é eterna. A atitude desesperada de tirar a própria vida só iria agravar a sua situação, trazendo muita dor e sofrimento para ele e seus familiares.

-Ele ouviu-o? Conseguiu salvá-lo? – perguntou Ace.

-Pela graça do bom Deus, ele, ao ouvir as minhas palavras, pareceu despertar do torpor a que se entregara, e tornou-se receptivo à ajuda para superar a crise que o envolvia. Hoje, ele cuida de um pequeno sítio alugado e, muito grato, colabora com a nossa casa o quanto pode.

Com lágrimas nos olhos, recordando-se de cenas passadas, Barnabé continuou:

-O Cristo ensinou-nos que as nossas atitudes contribuem para transformar o mundo, pois, os que nos observam podem ser induzidos a agir para o bem ou para o mal, copiando-nos. Somos assim convidados, pelos nossos atos no bem, a glorificar a Deus.

Entre os três, Ace era o que demonstrava maior impressão íntima aos comentários de Barnabé. As lágrimas rolavam copiosas em suas faces. Aproveitando uma breve pausa do instrutor, perguntou:

-Irmão, sou testemunha viva do auxílio prestado, por esta casa, aos desamparados de toda a sorte. Abandonado e sem ter para onde ir, encontrei aqui um lar e uma escola. Os ensinos de Jesus não são mais mistérios para mim, e com o apoio dos irmãos alcancei uma profissão. O Trabalho me ilumina os dias. Não me sinto capaz de seguir na íntegra as palavras aqui ensinadas, quando estou longe daqui. O que devo fazer?

Barnabé não se surpreendeu com a pergunta, ela refletia o sentimento de muitos dos frequentadores da casa, que se declaravam sem forças para enfrentar os problemas do mundo. Aproveitando a oportunidade, esclareceu:

-Ace, meu filho, quando vemos um rio caudaloso que desagua no oceano, podemos imaginar que ele nasceu de um pequeno filete de água?

Diante dos olhares curiosos dos rapazes, o palestrante continuou:

-Assim somos nas tarefas pelo nosso aperfeiçoamento e crescimento espiritual. O Senhor não espera que façamos maravilhas, além da nossa capacidade, mas convida-nos a iniciar a jornada de autoaperfeiçoamento, apesar das nossas deficiências e dificuldades. As grandes distâncias não são vencidas se não dermos os primeiros passos.

Os jovens sorriram com a didática da explicação.

Notando o adiantado da hora, Barnabé convidou todos a uma oração, para, logo após, buscarem uma refeição leve.

No grupo, ficou a certeza de que o Senhor só envia, a cada um, as situações e os problemas que tenhamos capacidade de superar, colocando ao nosso dispor o amparo necessário, caso tenhamos a mente aberta para tal.

Quando o silêncio finalmente reinou na laboriosa oficina de amor, o dedicado trabalhador, recolhido ao seu leito humilde, adormeceu, refletindo nos desafios, que, certamente, estavam programados para o seu caminho, pedindo forças para saber vencê-los, sem fraquejar.

  • Mateus 5: 13-16.

Até breve irmão Barnabé…

Chegamos ao final da publicação de uma serie de 31 textos em torno de José de Barnabé, iniciada em 13 de Abril de 2020, no Cidade Conecta.

Não posso deixar de dizer, neste momento, que tenho os sentimentos divididos entre a alegria pela conclusão deste ciclo de escritos sobre o valoroso Cristão e a saudade das suas palavras de profunda atenção e consideração com os diversos personagens que desfilaram aos nossos olhos, durante este período.

Os dramas relatados podem ser transportados facilmente aos dias atuais.

Todos casos foram magistralmente conduzidos, pelo indicado por Pedro ao auxilio à igreja nascente de Antioquia, com o máximo respeito e amor ao próximo.

Aprendemos que os designíos de Deus às nossas vidas são cumpridos muitas vezes de formas e por caminhos inesperados.

Reconhecemos que a proteção do alto está sempre presente, só precisamos pedir com sinceridade e, ter a mente aberta para entender as respostas de auxilio que nos são enviadas.

Na expectativa de um dia podermos retornar ao contato com as experiências vividas por tão nobre amigo, só nos resta deixar aqui um até breve ao querido irmão Barnabé.

Foto: José Barnabé por Rembrandt.

Psicopictografia pelo Médium Lívio Barbosa.

Confira os textos da coluna sobre Barnabé assinada por Carlos Malab (aqui)

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