Entrevista com Carlos Ferreirinha: moda, luxo e mercado

Tatiana Andrade | 23/02/2021

Autor do livro O Paladar não Retrocede, Carlos Ferreirinha tem mais de 25 anos no gerenciamento de operações, desenvolvimento de negócios, marketing, comunicação e inteligência estratégica, com posições executivas seniores em empresas como EDS e Louis Vuitton – grupo LVMH, onde foi CEO Brasil e diretor sênior da América Latina. 

Em 2001, fundou e dirige desde então a MCF Consultoria, uma empresa que traduz a inteligência do Luxo em gestão, provendo consultoria, orientação, treinamento, capacitação e educação.

Hoje, a colunista do Cidade Conecta, Tatiana Andrade traz um bate papo para lá de especial com grande nome da indústria da fashion.

A recente saída da label italiana de Luxo absoluto Bottega Veneta das redes sociais acaba de inquietar o mercado de Moda de Luxo. O que achou da atitude e qual acredita será seu reflexo no mercado daqui em diante? 

É muito difícil prever o impacto da iniciativa da Bottega no mercado como um todo. A Bottega é uma marca de nicho, do chamado luxo absoluto. A Bottega se afastou do instagram, mas segue presente em outras ações em redes sociais. É uma marca que pelo patamar que ocupa de total exclusividade, uma marca do “não logo”, que geralmente é admirada pela discrição… uma atitude como essa, apesar de ousada e ir na contramão da hiper conectividade, pode lhe garantir ainda mais prestígio com parte da camada de clientes que são admiradores e fãs confessos da marca. Vale ainda comentar que somente esse passo da marca já gerou impacto suficinete de buzz… que favorece a marca pela coragem de tomar outros rumos. Todas as marcas podem fazer esse movimento? a bottega impacta o mercado de forma geral? Não vejo dessa forma. A Bottega não é uma marca do luxo democrático. É uma marca do luxo absoluto. Sair do instagram, conferiu a marca uma aura ainda mais interessante de exclusividade.

Qual o impacto da pandemia no segmento de Moda de Luxo no Brasil e no mundo?

Eu vejo muito menos impacto nos hábitos de consumo e muito mais, em alguns casos, severamente, na dinâmica do mercado. importante sempre lembrar que nós consumidores somos “seres” em constante evolução. Se falamos mais de sustentabilidade agora na pandemia, não quer dizer que o tema surgiu agora… há anos cresce o número de consumidores mais atentos e preocupados com esses movimentos. A pandemia acelera, reverbera, potencializa… transformação digital na pandemia? Acelerada e assumiu papel de protagonismo. Porque é um fato há anos, haja vista o poderio de operações como net-a-portér, farftetch…

Assim, o que mais me faz ficar atento são as dinâmicas de mercado. Em crises severas como essa, os mais fortes ficam mais fortes, os mais fracos ficam mais fracos. Iremos ver os grupos de moda e luxo mais fortes. Marcas menores irão desaparecer. A consolidação acontecerá de forma mais rápida. Muitas são as marcas que não conseguirão aguentar o ritmo da pandemia de fecha, abre, lockdown… desafiador. Fluxo de caixa fica totalmente corrompido gerando situações bem complexas.

Há também o fato da pandemia deixar as pessoas muito tempo em #ficaemcasa o que, em um primeiro momento, derruba as vendas da moda – acessórios. As ocasiões de uso diminuíram muito. entretanto, a ausência da fluência do turismo de compras internacional, cria também uma janela de oportunidade para o consumo local.

E com as expectativas positivas em relação à vacina, quais as previsões para o setor no cenário pós-pandêmico? 

Não consigo enxergar. A vacinação tomará um tempo. É importante termos claro que o ano de 2021 ainda será desafiador. Uma melhora mais acentuada do mercado acontecerá, se tudo seguir como esperado, a partir de 2022. Há um tempo de vacinação total da população mundial. Não se trata apenas do brasil estar vacinado. O vírus “viaja”. 

Vale ainda lembrar que muitos hábitos que foram acontecendo durante todo esse tempo de pandemia, passam a ser irreversíveis. Iremos privilegiar mais os protocolos de saúde, a higiene, as áreas abertas… tudo isso impacta novas dinâmicas de consumo, de venda, de atendimento… que deverão passar a ser protagonistas.

Em seu excelente livro “O Paladar não Retrocede” citou uma frase especial de escritor Alvin Tofler: “Os analfabetos do século 21 não serão aqueles que não saber ler e escrever, mas aqueles que não sabem aprender, desaprender e aprender”. Em 2021, depois de um 2020 tão conturbado, o que aprendeu, desaprendeu e reaprendeu? 

O mais importante é “que tudo que sei é que não sei”. O tempo foi ressignificado. Rever, rever, rever em tempos menores e mais rápidos os planos. O feito se tornou mais importante que o perfeito. Fazer mais, testar mais, arriscar mais. Agilidade, velocidade, ritmo se tornam competências essenciais.

E como novos aprendizados adquiridos pelas marcas de luxos nos últimos tempos podem ser aplicados à gestão e inteligência estratégica de pequenas e médias marcas de moda?

São muitos, mas quero destacar a habilidade e capacidade das marcas de luxo em um tempo como esse pandêmico, de deixarem mais claro quem são, porque existem, o que as diferenciam, onde se destacam.

As marcas de luxo exacerbaram nesse período suas características, suas diferenciações e fomentaram ainda mais o diálogo de marca, que vai além de produto e serviço.

Aqui tem muitos aprendizados. cuidem das marcas, criem e contem histórias. Deixem claro onde se diferenciam.

Acompanhe outros textos da colunista Tatiana Adrade (aqui)

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