Em cena: Retrato de uma Jovem em Chamas

Impecável e avassalador, "Retrato de uma Jovem em Chamas" é puro amor e poesia.

Gustavo Silveira Rezende | 12/11/2020

Um dos filmes mais imponentes e sensíveis dos últimos tempos, “Retrato de uma Jovem em Chamas” é uma verdadeira poesia visual e um profundo estudo sobre os sentidos como catalisador dos sentimentos.

Magistralmente dirigido pela supercompetente Céline Sciamma, o longa se passa no século XVIII e acompanha Marianne, uma jovem artista que recebe a tarefa de pintar um retrato de Héloïse para um casamento arranjado e indesejado.

Passando seus dias observando Héloïse e as noites tentando reproduzir a sua imagem, Marianne se vê cada vez mais próxima de sua modelo.

Realizando uma impactante obra-prima, Sciamma consegue transmitir inúmeros sentimentos, como desejo, amor, companheirismo e desilusão por meio do olhar, sentido que, pelo dito popular, pode ser traduzido como a “janela da alma”.

O envolvimento gradativo das personagens principais é desenvolvido de maneira sensível e arrebatadora, iniciado pelos olhares observadores de Marianne. Talvez, por esse motivo, alguns espectadores possam se incomodar com o ritmo lento e contemplativo que a narrativa estabelece. Mas quem conseguir embarcar nessa belíssima história de amor, poderá usufruir da construção de um dos mais sufocantes, líricos e bucólicos relacionamentos da história do cinema.

Outro grande destaque do longa é a fantástica cinematografia de Claire Mathon. Alternando ambientes vastos com locações escuras e fechadas, a fotógrafa consegue traduzir os sentimentos das protagonistas: o anseio pela liberdade, contrastando com a angustiante realidade em que vivem. De certa forma, “Retrato de uma Jovem em Chamas” carrega um pouco de “O Piano”, clássico de Jane Campion, especialmente no desenvolvimento da tensão sexual, dos contrastes da cinematografia e na não verbalização dos sentimentos.

A dupla de atrizes entrega um trabalho impecável. Noémie Merlant está fabulosa na pele de Marianne, uma mulher à frente de seu tempo, que carrega consigo uma dose equilibrada de mistério e desejo. Adèle Haenel tambem faz uma exímia interpretação de Héloïse, uma jovem desiludida e revoltada, que encontra em Marianne a razão de viver.

Impecável e avassalador, “Retrato de uma Jovem em Chamas” é puro amor e poesia.

Leia também: Coluna “Em cena”