Em cena: Border

Intenso, poético e desconcertante, longa é mais uma pérola do cinema sueco que você precisa descobrir.

Gustavo Silveira Rezende | 16/12/2020

Dirigido por Ali Abbasi e baseado em um conto nórdico, escrito pelo mesmo autor do fabuloso “Deixa Ela Entrar”, o “Border” conta a história de Tina, uma policial que trabalha no aeroporto fiscalizando bagagens e passageiros. Com uma fisionomia peculiar e os sentidos muito apurados, ela é capaz de identificar criminosos e objetos ilícitos por meio do olfato, fazendo com que nada passe despercebido por sua vigilância. Certo dia, um homem com traços semelhantes aos seus cruza a alfândega, mas, inexplicavelmente, Tina não consegue rastreá-lo. Obsecada, ela parte em busca de respostas e acaba encontrando a sua essência. 

É preciso salientar que “Border” não é um filme de narrativa convencional e respostas fáceis. Com um roteiro peculiar e repleto de camadas muito profundas, a produção “exige” que o espectador “embarque” na fantasia proposta para poder usufruir de toda a ressonância sensorial oferecida. De maneira alegórica e metafórica, Abbasi transita por gêneros como suspense, romance e horror para discutir temas como minorias, racismo, preconceito e relação do homem com a natureza.

Tecnicamente, “Border” é grandioso. A mixagem e a edição de som trabalham muito bem o silêncio como um elemento narrativo essencial para a construção da atmosfera do longa. A maquiagem (indicada ao Oscar), constrói dois seres incrivelmente únicos e inesquecíveis. E para finalizar, a fotografia impõe um naturalismo pulsante à narrativa, construindo um ambiente bucólico e selvagem. 

A dupla de atores é um verdadeiro espetáculo. Eva Melander faz um trabalho incrível na pele de Tina, uma mulher introspectiva que vai ganhando novos contornos ao longo da projeção. Ela é a responsável por conduzir o espectador pelas surpresas e pelos desdobramentos que a história reserva. Eero Milonoff também está ótimo no papel de Vore, um homem rude e enigmático, que vai “descascando” as camadas e a carapaça que se formou ao redor de Tina.

Surpreendente, “estranho” e genial, Border é um filme feito para aguçar os sentidos!

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