Dificuldade alimentar na infância: dicas para ajudar seu filho a comer melhor

Os comportamentos mais comuns e prejudiciais que os pais adotam para aumentar a ingesta das crianças são: FORÇAR, SUBSTITUIR e DISTRAIR.

Bárbara Fonseca Gazzinelli | 16/11/2020

Metade das famílias do consultório pediátrico contemporâneo se queixa de que “seu filho não come” em algum momento da vida da criança. A resposta para essa queixa vai muito além dos alimentos, e está muito mais relacionada a comportamento.

A seletividade alimentar é muito comum e parte do desenvolvimento da criança pode ter início por volta de 18 meses com pico aos 2 anos. Além disso, como a velocidade de crescimento diminui, o apetite também pode diminuir no segundo ano de vida.

A criança passa por várias fases, e isso independe do desempenho dos pais ou do pediatra. O importante é ter consciência disso, para evitar os principais erros que podem piorar essa seletividade ou perpetuar o problema no futuro.

O que não devemos fazer?

Os comportamentos mais comuns e prejudiciais que os pais adotam para aumentar a ingesta das crianças são: FORÇAR, SUBSTITUIR e DISTRAIR. Aí está a origem da maioria dos problemas de comportamento alimentar.

FORÇAR: Pressionar é essencialmente não deixar a criança exercer o seu direito de dizer não. Nem sempre é fácil perceber que você está forçando se filho a comer. Frases como “se não comer tudo não tem sobremesa”, “tem que limpar o prato”, “coma tudo, senão não tem televisão”, na verdade estão desrespeitando os sinais de fome e saciedade. Forçar a criança fisicamente a comer ou usar de métodos como fazê-la rir ou abrir a boca por outro motivo e colocar a colher na boca dela, pode levar a sérios problemas.

SUBSTITUIR o alimento que ele recusa pelo seu alimento preferido é muito ruim, porque isso tira a chance dele se adaptar aos novos alimentos. Mesmo que ele não aceite nada, tente não substituir e espere a próxima refeição. Isso vai ajudá-los a entender melhor a sensação de fome, o que pode motivar novas tentativas alimentares.

DISTRAIR: o uso de telas (celular, televisão), em especial, para distrair a criança na hora da refeição é muito prejudicial.

Não é aconselhável a prática de gratificação (prêmios) ou castigos para conseguir que a criança coma o que os pais acreditam que seja o necessário para ela. Não use guloseimas como recompensa por bom comportamento, e nem como chantagem/condição para que a criança coma tudo o que está no prato.

7 dicas para ajudar seu filho se alimentar melhor:

  • -Limitar tempo de refeição em no máximo 30 minutos
  • -Ter rotina alimentar, priorizando as refeições principais, e não os lanches.
  • -Tornar alcançável (oferecer uma quantidade que a criança consegue comer).
  • -Reforço positivo: em vez de falar o que a criança não come, falar o que come. Reforçar o que foi positivo naquele momento.
  • -Proporcionar momentos agradáveis ao redor da mesa com a família, sem tensão, terrorismos ou cobranças.
  • -Evitar a presença de alimentos ultraprocessados em casa. As crianças não têm maturidade neurológica para fazer escolhas baseadas no que é ou não saudável, os pais sim.
  • -Apresente um novo alimento pelo menos 8 a 15 vezes. É comum que eles recusem algumas vezes até se acostumarem.

Com relação à motivação para as crianças comerem mais saudável: é pouco efetivo colocar adjetivos na comida, dizer que espinafre deixa mais forte ou que a laranja tem mais vitamina. A nutricionista Malu Petty, autora do livro “Lugar de criança é na cozinha”, reforça o que os estudos científicos mostram: crianças não comem mais porque um prato é cheio de nutrientes ou porque faz bem à saúde, pois elas não têm este fator “motivacional” evidente para comer algo como um adulto o teria. Crianças comem o que gostam, o que estão acostumadas e o que sentem vontade de comer. E isso é natural para elas. Daí a importância de expor os pequenos a uma ampla variedade de alimentos, deixar à disposição em casa comida de verdadede (e evitar os ultraprocessados), incentivá-los a provar novos sabores, de convidá-los a participar das compras e envolvê-los em atividades culinárias, como montar o próprio lanche, de fazer as refeições à mesa em família. Quanto mais legal for a apresentação da comida e mais plena de significados a experiência do comer, mais eles terão a oportunidade de criar uma relação positiva com a comida.

Na fase da introdução alimentar, devemos ter atenção para não deixar a expectativa e ansiedade dominarem o cenário. O grande objetivo da introdução de novos alimentos na vida do bebê nos dias de hojevai muito além de garantir sua saúde nutricional. A meta é garantir uma relação saudável com a comida, a construção de hábitos saudáveis e duradouros. A alimentação adequada nos primeiros anos de vida influencia o paladar, o metabolismo na vida adulta e a microbiota saudável para o resto da vida.

A preferência alimentar está mais relacionada a experiências positivas e sofre grande influência das preferências parentais. É um desafio para os pais oferecer aquilo que “não gostam”. Não adianta nada convencer o pequeno a comer verduras e legumes se os pais não o fazem. A criança adquire muitos de seus hábitos observando o mundo à sua volta e, claro, as pessoas que convivem com ela. O modelo parental é de suma importância e a chegada de um filho é uma grande oportunidade de adesão a mudanças de comportamento e estilo de vida. Essa é a intervenção mais eficaz para a saúde da criança no futuro.

Afinal, a alimentação saudável e balanceada é um dos maiores legados que os pais podem deixar para os filhos.

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