Descoberta do Festival Pró-Tiradentes: o chouriço de Dona Celina

Aos 73 anos, a produtora de São João Del Rei prepara o embutido conforme manda a tradição. E o melhor, você pode levar para casa

Projeto Fartura | 16/10/2020

Gastronomia. Está lá, escrito no toldo azul: Mercearia Santo Antônio. Mas o nome é mera formalidade. Todo mundo conhece o lugar como Mercearia da Dona Celina. O que um dia também foi um mercadinho, com a venda de legumes e verduras, hoje é uma loja de arranjo de flores artificiais. Dona Celina desistiu de trazer os “trem” da horta para a lojinha desde que o supermercado abriu suas portas e comeu toda a clientela com suas promoções. Mas, ainda assim, é possível encontrar entre rosas e girassóis de plástico, ovos de galinhas que vivem soltas pelo quintal à venda. Resistência caipira.

Sim, ao cruzar a porta você vai desconfiar que está no lugar errado. Mas atrás de uma parede – onde está afixada a oração Para proteger todos os dias – encontra-se um pequeno tesouro. Em uma geladeira horizontal descansa uma verdadeira iguaria culinária: o chouriço. O embutido, preparado com sangue fresco de porco, é raridade hoje em dia. Em alguns lugares é até mesmo proibida sua comercialização. Quando não há proibição pela lei, as regras do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) dificultam tanto o processo, que se torna impossível encontrar sangue regularizado no mercado. A começar pela certificação para sangue cru. Não existe.

Por isso, quando se acha um chouriço de qualidade é preciso anunciar ao mundo. Dona Celina vive em São João Del Rei, no interior de Minas Gerais. E seu trabalho foi descoberto quase por acaso, durante uma live com o professor e chef Marcus Monteiro durante o Festival Gastronomia e Cultura Pró-Tiradentes. Ele preparou a peça ali, ao vivo, no estúdio. O cheiro já era convincente, mas ao levar a primeira garfada à boca, veio a certeza. Chouriço de primeira!   

Dona Celina aprendeu a receita com a mãe, dona Vitoria Longatti, que veio da Itália. “Não tem segredo. Leva alho, sal, pimenta malagueta e muito amor”, diz ela, que prepara cerca de 50 quilos do embutido duas vezes semana. “Também faço questão de limpar muito bem a carne. Não sobra uma única pelanca. Só trabalho com a parte boa”. Além da vizinhança, a produtora faz sucesso entre clientes de fora: tem gente que vem de longe, “até mesmo de São Paulo”, para buscar o tal chouriço (R$ 25, o quilo).                                           .  

Dividindo o holofote com a principal estrela do cardápio, há ainda uma linguiça de pernil (R$ 27, o quilo), com pimenta no ponto certo, e o tal do codeguim (R$ 23, o quilo), um tipo de linguiça de origem italiana, que mistura gordura, carne suína e especiarias. Sua principal diferença para o salame é ser cozida antes de ser consumida. Se lá na Itália é servida com lentilhas (prato tradicional na ceia de no Ano Novo), dona Celina deu um jeito de amineirar o “cudiguim”: só colocá-lo no feijão. Fica uma delícia, jura de pé junto. E ai de quem duvidar.  

Para experimentar as tais maravilhas preparadas por Dona Celinha Ribeiro de Paula, 73 anos, viúva, mãe de seis e produtora de mão cheia, anota o endereço: Avenida Leite de Castro, 888, Bairro da Fábrica, São João Del Rei, telefone (só fixo, já que ela não tem celular) (32) 3371-7086.

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