Dentro das Quatro Linhas

Humberto Alves Pereira Filho | 13/09/2021

diretor Humberto Alves Pereira Filho

Reza a lenda que, o ex-presidente do Brasil, Jânio “Renúncia” Quadros, tinha o hábito de promulgar leis bizarras, como a proibição do biquíni e das brigas de galo, para desviar a atenção da mídia e das pessoas. Enquanto todos discutiam o absurdo de tais leis, Jânio, discretamente, fazia passar as verdadeiras e importantes leis, mudanças.

Guardadas todas as proporções, parece que o presidente Jair Bolsonaro age de maneira muito parecida, com as mesmas intenções.

Bolsonaro fez isso na maior e mais inédita comemoração de um 7 de Setembro que o Brasil já testemunhou, mobilizando milhões de pessoas e correligionários para as ruas das maiores cidades do Brasil. Das menores também.

O aviso de que a “onça ia beber água”, de que o “circo pegaria fogo”, no Dia da Independência, começou há meses, criando uma expectativa e um clima de revolução também inéditos.

E revoluções, sabemos, nunca acabam bem.

Enquanto a grande imprensa fazia que não via, as redes sociais inflamaram-se. Os aliados do presidente festejaram o “é agora ou nunca”, esperando mudanças radicais, incluindo o tal do voto auditado e o impeachment de pelo menos dois ministros do Supremo Tribunal Federal, o STF que, desde o “Mensalão”, virou “pop star”.

Por outro lado, sempre torcendo contra e para tudo dar errado, estavam os brasileiros “de esquerda”, rotulando o 7 de Setembro como movimento golpista e antidemocrático. O intuito final não era outro, claro, o impeachment do próprio Bolsonaro.

E assim foi. Ou não!

Já dia 6 de setembro, milhares de pessoas e legião de caminhões “invadiram” Brasília aumentando o clima de festa e de que “cabeças rolariam”. Nunca o país esteve tão dividido.

Não deu outra. Bolsonaro incendiou as massas, primeiro em Brasília e logo depois, ainda mais, na Avenida Paulista, em São Paulo. Bolsonaro foi contundente, duro, ameaçador, agressivo. A massa foi ao delírio e deu o recado a quem interessava: oposição, políticos e ministros do STF.

Com continental onde verde amarela, Bolsonaro provou que o povo estava com ele, literalmente, para o que der e vier.

Recado dado, recado entendido, com as reações não menos duras dos alvos de Bolsonaro.

Todo o Brasil esperava o pior desenlace; uma guerra civil, uma revolução, um novo 1964; com invasões, prisões, destituição dos poderes Legislativo e Judiciário.

Mas, para pasmo geral da nação, nada aconteceu. O ápice foi a tradicional “live” de Jair Bolsonaro, via Internet.

Para pasmo e desespero de seus “soldados”, o “capitão general”, um dia antes, tão pai herói, valente e corajoso sumiu, pediu arrego, com medo das contra ameaças de Alexandre de Moraes e seus colegas.

Para o oposição um misto de vitória e alívio. Ao mesmo tempo que regozijava-se do recuo do presidente, ficou a ver navios. Bolsonaro não caiu na armadilha, não cumpriu suas ameaças. Por fim, não deu “um golpe” o que seria o motivo ideal para receber um impeachment que virou moda no Brasil, depois de Collor e Dilma.

Na verdade, como em outras situações parecidas, mas não tão pesadas, como o episódio Sérgio Moro, Bolsonaro mostrou ser, além do democrata que não “sai das quatro linhas da Constituição”, frase popularizada por ele mesmo, um enorme estrategista, um estadista, um perfeito jogador de xadrez político.

Em vez do caos anunciado, em vez de mais crise, mais violência e insegurança, o ato de Bolsonaro acalmou o mercado, derrubou o dólar, subiu a bolsa de valores.

O Brasil não acabou, muito pelo contrário. Enquanto na “live” Bolsonaro falava – podem conferir – sobre alface, alpiste, couve, Botafogo e sua infância; uma conversa surrealista para prós e contras; um acordo secreto que estava agendado, incluindo o ex-presidente Michel Temer, com mediador e pacificador, em vez de gasolina, jogou água na fogueira das vaidades, verdades e “fake news”.

E tudo voltou ao normal. Normal não, tudo voltou ao melhor dos mundos.

Como fazia Jânio Quadros, enquanto Bolsonaro ameaçava, com sua “indefectível gentileza”, seu “sutil vocabulário”, jurando mover e arrancar montanhas, dia seguinte, mais calmo que um Buda, conseguiu tudo o que queria e mais.

De novo, Bolsonaro mostrou que o povo continua com ele. E quem tem o povo tem tudo.

Depois de sua “Declaração à Nação”, prisões foram, estão sendo ou serão revogadas. Os caminhoneiros não pararam o Brasil e a Economia, já castigada por pandemia e seca. E muito mais.

O Congresso, enfim, vai votar as pautas tão esperadas por Bolsonaro, como o ICMS único sobre os combustíveis; menos ou nenhum imposto para quem quiser comprar uma arma; o STF não mais extrapolará seu campo, invadindo o do Legislativo, do Executivo e da CGU; liberdade de expressão, sem ameaças de prisão; André Mendonça no STF e claro, abrir caminho para o principal, a instauração do voto auditado.

Bolsonaro provou que mesmo pisando nas linhas, a bola não saiu das mesmas, o jogo continua, com juiz apitando e a torcida cada vez mais fanática e sedenta por outros gols de placa.

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