Crise e recuperação

Desde o início do ciclo de cortes de juros ainda em 2019, as emissões no mercado de capitais tiveram significativo crescimento, 70% em relação ao ano anterior, e somaram R$432 bilhões.

Rafaela Vitoria | 12/10/2020

O terceiro trimestre já se encerrou e ainda vamos levar algumas semanas para saber o quanto a economia recuperou depois do tombo do PIB de 9,7% até junho, mas já sabemos que foi um forte crescimento que pode chegar a uma expansão de 8% em relação ao segundo trimestre. A crise causada pela pandemia teve um impacto profundo na nossa economia, de magnitude nunca antes observada. A paralização de várias atividades – e ainda hoje as restrições com as quais convivemos – teve resultado bastante negativo em diversos setores. No entanto, apesar das primeiras previsões econômicas terem sido desastrosas, de retração de até 10% no PIB anual, a retomada vem acontecendo de maneira mais forte e surpreendente, e caminhamos para uma queda no ano bem menor, entre -4 e -5%. O que vem motivando essa recuperação?

Um dos principais efeitos da crise causada pela pandemia foi a restrição ao consumo, devido às medidas de isolamento social. Diferentemente de outras crises, a recessão não foi causada por um excesso de oferta ou de crédito, mas sim por barreiras externas que restringiram o consumo de bens e serviços. A retração observada na indústria, varejo e serviços foi significativa, mas concentrada nos meses de março e abril. A partir de maio, a economia começou a dar os primeiros sinais de recuperação. As medidas do governo de combate à crise, como o aumento dos gastos fiscais com distribuição de renda diretamente para as famílias, injetaram liquidez sem precedentes na nossa economia. Apesar da elevação do desemprego nesse período, o pagamento do auxílio foi, em alguns casos, mais que suficiente para recompor a renda das famílias, principalmente nas classes mais baixas.

Além do auxílio emergencial, que injetou mais de R$200 bilhões na economia, a política monetária com linhas de financiamento especiais aprovadas pelo BC e a redução da Selic para o patamar histórico de 2% vem permitindo o crescimento da oferta de crédito e a manutenção de liquidez no sistema financeiro. O resultado vem sendo um aumento da concessão de crédito a custos menores e inadimplência em baixa recorde, tanto para pessoa física quanto para empresas. A maior liquidez das famílias contribui para o crescimento do consumo, à medida em que o processo de reabertura continua e as restrições são abrandadas.

Por outro lado, oretorno gradual do consumo, considerando que diversos segmentos do setor de serviços somente voltarão ao normal após uma vacina, juntamente com o recebimento dos auxílios tem produzido uma elevação significativa da taxa de poupança na economia. Não somente a caderneta de poupança vem apresentando captações recordes, mas também cresceram as aplicações em fundos de investimento e títulos de renda fixa e renda variável. Na poupança, a captação entre março e setembro foi de R$145 bilhões, enquanto nos fundos de investimento chegou a R$148 bilhões.

A combinação de maior poupança e juros baixos podem ter implicações significativas para a retomada do crescimento. Parte da formação de poupança tem caráter precaucional, mas pode ser mantida considerando possíveis mudanças de hábito que impactam o padrão de gastos das famílias. No longo prazo, a redução dos juros tende a estimular o investidor a buscar maior diversificação, incluindo o direcionamento de recursos para o financiamento privado no mercado de capitais.

Desde o início do ciclo de cortes de juros ainda em 2019, as emissões no mercado de capitais tiveram significativo crescimento, 70% em relação ao ano anterior, e somaram R$432 bilhões. Em 2020, mesmo com a crise, as emissões até agosto foram de R$213 bilhões e o crescimento de novos investidores na bolsa ultrapassa 100% em 12 meses. A busca por diversificação incluindo ativos de risco deve continuar provendo funding para projetos de investimento de longo prazo que requerem capital ou dívida longa, como nos setores imobiliário e de infraestrutura.

No entanto, para que o cenário de recuperação se consolide, principalmente com o menor patamar de juros, é necessária a redução do risco fiscal. As discussões sobre o orçamento de 2021 vem gerando incertezas a respeito da flexibilização do teto de gastos para acomodação de novas despesas sem que se avance nas reformas. O risco fiscal já causou depreciação cambial e aumento nos juros de longo prazo, e, se esse cenário não for revertido, a continuidade do processo de recuperação em 2021 pode ficar comprometida. O melhor caminho para o governo é retomar o ajuste fiscal, promovendo reformas que deem previsibilidade em relação à dívida pública permitindo um cenário de juros menores e crescimento sustentável no longo prazo.

Rafaela Vitoria, CFA, é Economista-Chefe do Banco Inter, MBA pela Wharton Business School, professora da pós-graduação da PUC e da Fundação Dom Cabral

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