Cris Barros, elegante e atemporal

Talentosa estilista define sua própria linguagem e tira a moda da zona de conforto.

Tatiana Andrade | 06/08/2021

Desde muito jovem, a paulistana Cris Barros tem sido uma potência criativa e foi questão de tempo até que ela descobrisse o meio pelo qual manifestar seus talentos florescentes. Depois de passar pelo marketing da Zoomp e trabalhar com o estilista francês Stephan Jason, em 2002 criou sua marca homônima. Com visão de inspirar confiança e expressão criativa, a dinâmica estilista constrói cada coleção inspirada no movimento ao seu redor e do ambiente idílico que a moda lhe proporciona.

Incorporada ao Grupo Soma há cinco anos, foi com seu design inovador e abordagem de estilo único que Cris inaugurou mais dez lojas em todo o Brasil. Combinações de cores e texturas, silhuetas bem construídas, tecidos nobres, acabamento impecável e estampas exclusivas são algumas das principais características da marca. Com a recente abertura da primeira loja exclusiva em Belo Horizonte, a estilista se firmou muito mais do que uma oferta de vestuário padrão, mas como um estilo de vida.

Nesta entrevista ao Cidade Conecta, ela fala como enfrentou o período mais crítico da pandemia, arte e inspirações, história da marca, planos e como enxerga o futuro da moda.

Você consegue se lembrar da primeira vez em que ouviu falar de moda e quando decidiu que se dedicaria a essa área?

Desde pequena queria desenhar, só que, na época, eu ainda não sabia que seria desenho de moda. Quando chegou a hora de estudar mesmo, estava em dúvida do que fazer, pois minha mãe me sugeriu Direito, mas eu sentia que não era exatamente o caminho pra mim. Fui conversar com um orientador vocacional que percebeu em mim um lado criativo e artístico muito forte. Em paralelo a essa conversa, fui convidada para participar de um casting para a revista Capricho para um editorial de uma semana na Disney. Acabei sendo contratada para o job, só que quando cheguei lá, fiquei mais apaixonada pelo trabalho atrás da câmera e trocas com os profissionais incríveis da revista como fotógrafos, stylists, diretora (os melhores do mercado naquela época) do que fazendo as fotos como modelo. Essa imersão de uma semana neste mundo da moda realmente foi o que mudou a minha trajetória. Tive a sorte de ter o apoio dos meus pais para enfrentar essa nova jornada e assim comecei a estudar moda na Universidade Anhembi Morumbi seguido de uma especialização com mestrado no Instituto Marangoni, em Milão. O que não imaginava era que por lá, trabalharia com o estilista francês Stephan Jason, profissional conhecido por ter feito parte da equipe do Yves Saint Laurent. Quando voltei ao Brasil, integrei o time de Renato Kherlakian, na Zoomp, e trabalhei no marketing. Lá, eu tinha muitas responsabilidades e foi incrível, aprendi muito, o que foi fundamental para abrir finalmente minha marca.

Quais os fatores influenciaram na sua decisão de ter uma marca própria?

Sabia que não seria da noite pro dia e que tinha que ter muita experiência e conhecimento em todas as áreas, além de muita bagagem para assumir tamanha responsabilidade. Quando trabalhei na Zoomp, Renato me deu sua confiança e eu aprendi muito. Isso abriu minha mente e me deu uma visão completa de como uma marca funcionava: marketing, finanças, lojas, relações públicas, castings. O desejo de abrir uma loja sempre esteve nos meus planos e foi em 2002, que me senti pronta e resolvi fundar a Cris Barros abrindo a primeira loja em São Paulo.

Mais tarde, a Cris Barros foi incorporada ao Grupo Soma. O que mudou na marca desde então?

A marca “Cris Barros” continua com a sua essência, seus valores e princípios. O Grupo Soma veio literalmente para somar, nos apoiando como um irmão mais velho através da experiência incrível que ele tem, para nos tornar cada vez mais fortes e continuar fazendo o que fazemos de melhor – que é cria.

Durante o isolamento, como você conseguiu se manter inspirada e criativa?

Com certeza ficar isolada da minha equipe foi uma das partes mais desafiadoras. Somos uma marca muito humana, com muita troca, muito contato, histórias pra contar, e estarmos juntos no dia a dia com certeza me mantém muito inspirada. Por outro lado, esse novo momento nos fez olhar para dentro, respirar e apreciar o presente, o que despertou um novo olhar de inspiração e criatividade. E criar nada mais é do que nos reinventarmos a cada dia.

Na pandemia, as pessoas certamente adotaram o conforto mais do que nunca. Você prevê essa tendência exercendo mais influência nas suas próximas coleções?

Claro, quem não quer estar confortável independentemente do momento e ocasião? O tema da nova coleção foi inspirado em várias formas de escapismos. A primeira foi por meio do esporte e da sensação de liberdade que ele proporciona. Nos inspiramos muito no mundo náutico e o universo do surfe. Vocês vão ver peças chaves como conjuntos de linho e algodão com estampas, bordados e aviamentos traduzindo esse tema, assim como calças leves, t-shirts, tricôs, vestidos fluidos que são perfeitos para serem usados dentro e fora de casa. Eu acho muito importante se sentir confortável nas suas roupas sem deixar de ser chique.

Sobre o ritmo da indústria, tem sido bastante falado a respeito do lançamento de coleções menores e atemporais. Você acha que isso é algo que a Cris Barros apoiará?

Acho que a pandemia acelerou um movimento natural de um consumo mais consciente e isso já faz parte do DNA da marca há muito tempo. As pessoas estão cada vez mais procurando produtos com sentido e significado, e com certeza é isso que a marca apoia.

Você acha que os desfiles digitais substituirão os presenciais ou eles são insubstituíveis?

Não acho que são insubstituíveis, mas com certeza eles devem continuar. As marcas conseguiram se reinventar durante a pandemia graças às novas tecnologias, mas um desfile presencial será pra sempre um desfile presencial. A moda precisa dessa troca, seja um olhar na passarela, um toque na peça de roupa, uma troca no backstage, enfim, o contato humano, o coletivo, faz toda a diferença. E quem não está sentindo falta disso?

As campanhas também estão mudando completamente, sendo veiculadas via Zoom ou mesmo adotando avatares como modelos. Isso é algo que você acha que se tornará mais comum?

Pode se dizer que sim, se temos essa tecnologia a nosso favor por que não usar, certo? Acho que é sempre uma questão de equilíbrio para conseguirmos manter um link e emoções autênticas com o nosso público.

As limitações atuais estão forçando todos a serem mais criativos. Houve algum processo de reinvenção na marca?

Felizmente nosso time já estava bem estruturado para operar on-line, reinventamos os processos de treinamentos e apresentações de coleções focadas 100% no digital por meio das nossas lives com venda ao vivo. Criamos conteúdos inéditos em casa; criamos novos formatos de treinamento para nossas vendedoras, para que soubessem como atender a cliente nos multicanais; investimos em ferramentas de CRM (gestão de relacionamento com o cliente) e integração de estoques (Omni Channel). Foi uma curva de aprendizado muito interessante e agora não podemos fazer sem.

Você é otimista quanto ao futuro da moda?

Sempre. A moda me motiva e me mostra que está em constante evolução. Meu objetivo como marca é pensar numa moda mais consciente, investindo cada vez mais em peças sustentáveis, respeitando, principalmente, o meio ambiente, e no poder do coletivo. Um dos meus focos principais é voltado para a responsabilidade e engajamento social da marca, ajudando com a capacitação das artesãs da ONG Casa do Rio na Amazônia e também apoiando a Rede Synapse no projeto de alfabetização de crianças. Temos muito o que aprender ainda, nos reinventarmos, e é esse futuro que eu desejo pra moda.

Texto: Tatiana Andrade e Izabella Figueiredo

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