Concreto: da estrutura à estética

Por que é tão utilizado na arquitetura e construção?

Marina Dubal | 23/06/2021

Já dizia Schopenhauer, “Arquitetura é música congelada”. Congelada porque ela é registro sólido de nosso passado e presente, contando em concreto a história da humanidade a olho nu. Em concreto porque não há como negar: por muitos anos o concreto tem sido o elemento base da construção civil sendo o material mais usado ao longo da nossa história construtiva. Ele ajudou a construir nossas cidades, nos ajudou a superar barreiras e impulsionou nosso desenvolvimento como sociedade. Ele é o segundo insumo mais consumido no mundo, perdendo apenas para água.

Ele é uma mistura fluida de cimento, areia, brita e água (podendo ainda receber outros componentes). Materiais relativamente simples, mas que juntos e feitos com cuidado aceitam e assumem diferentes formas dependendo do volume em que forem despejados. Sua utilização histórica se dá, além dessa flexibilidade plástica de se modelar e assumir diferentes formatos, pelo baixo custo comparado com outros materiais, durabilidade e alta resistência, proporcionando um uso versátil e uma grande versatilidade estética.

Ele assume diferentes papeis, desde uma grande infraestrutura até chegar a uma menor escala de móveis e superfícies. Com tanta flexibilidade é fácil entender por que seu uso lidera a construção civil brasileira, podendo estar presente em até impressionantes 90% das obras atualmente. Para nós arquitetos é inegável seu protagonismo em nossas escolhas diárias, e a casa brasileira, em sua história, é marcada pelo concreto em suas diferentes texturas e usos. Apesar de muitas vezes ser associado apenas às estruturas que sustentam as construções, sua capacidade de evidenciar (como se fosse uma impressão) as marcas das superfícies que o armazenam, permite explorar sua expressividade em aspectos que vão muito além de suas características estruturais.

Além das famosas estruturas, com boas escolhas e mão de obra, o concreto aparente pode ser o grande protagonista de uma construção, tanto externa como internamente. Explorar a grande potência desse material de forma criativa e inventiva é sempre uma provocação bem-vinda para nós arquitetos. Sua presença marcante pode dialogar com diferentes materiais, o que faz com que seu uso sempre se renove esteticamente. É muito importante que as associações com outros materiais sejam feitas com cuidado, explorando cores, texturas e novas plasticidades, já que o concreto aparente imprime um caráter marcante e único a qualquer ambiente. Mas para deixá-lo aparente, certos cuidados são imprescindíveis, já que ele poderá sofrer exposição direta às intempéries, além do apelo estético que deve considerar a forma como ele é executado. Por isso a importância de ter bons profissionais para acompanhar seu uso.

O concreto e a arquitetura brasileira:

“Se a reta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o concreto buscar o infinito.” Oscar Niemeyer

No Brasil, o concreto tem uma história especial. Os grandes arquitetos brasileiros, principalmente os chamados brutalistas e modernistas, contribuíram muito para o desenvolvimento e o uso estético desse material na produção internacional. Hoje, com muito orgulho, temos uma das arquiteturas mais reconhecidas no mundo, e isso se deu graças ao trabalho inovador e criativo de profissionais como Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi, Vilanova Artigas, Ruy Ohtake e Paulo Mendes da Rocha. E na obra desses renomados profissionais o concreto foi explorado de forma surpreendente e inovadora, obras que nos inspiram até os dias de hoje e são referência para nós e à gerações por vir.

Como não se impressionar com obras emblemáticas como o SESC Pompeia, de Lina Bo Bardi. A FAU USP de Vilanova Artigas. De Niemeyer o Edifício Copam, a Casa das Canoas assim como uma cidade inteira projetada por ele e Lúcio Costa e que hoje é nossa capital. Arquitetura assim emociona. Entrar no Museu Brasileiro de Escultura (Mube) de Paulo Mendes da Rocha em São Paulo e não sair apaixonado pelo poder do concreto beira à insensatez.

Paulo Mendes da Rocha deixa agora seu legado literalmente construído com concreto armado, material que usou com primor durante toda sua trajetória, aproveitando ao máximo seu potencial e moldando estruturas extraordinárias. Ele nos deixou no dia 23 de maio deste ano, mas sua herança terá vida longa, moldada pelo concreto aparente que ele elevou ao status de obra de arte. Premiado e reconhecido internacionalmente, ele foi laureado com os maiores prêmios da arquitetura: o Leão de Ouro na Bienal de Veneza 2016, a RIBA Gold Medal 2017, o Prêmio Imperial do Japão e o tão conhecido e almejado por arquitetos, Prêmio Pritzker, de 2006, que é considerado o Nobel da arquitetura. Ele levou nossa arquitetura para o mundo. É para nós uma grande inspiração, deixando como patrimônio uma arquitetura humana e revolucionária que será vivenciada por muitas gerações.

“Não ser estritamente tecnicista, fazer com que aquilo que apareça não seja simplesmente uma solução fria, mecânica, dos problemas, é justamente o que dá a dimensão do que chamamos de arquitetura. Você colocar as questões para diante como uma reflexão que não cessa” (Paulo Mendes da Rocha)

Futuro do concreto:

Tão presente em nosso passado e presente, o concreto construiu nossa história e a tendência é que ele se mantenha como aliado para projetar nosso futuro. A diferença é que começa a surgir agora um novo olhar sobre esse material, tanto em relação a novos usos e extrapolação de suas características, quanto ao apelo sustentável que o mundo urge nos próximos anos. Já estão sendo desenvolvidas novas tecnologias para atender a essas mudanças, e nós arquitetos devemos ficar sempre atentos à evolução desses materiais. Já existem pesquisas integrando o concreto a diferentes insumos, principalmente de base biológica, que podem gerar novos caminhos e possibilidades. Já começa a ganhar força no cenário internacional o GFRC (Concreto Reforçado com Fibras de Vidro) que já permite formatos mais esbeltos, leves e desafiantes. Concreto impresso em 3D, concreto biorretivo, bioconcreto, concreto translucido, misturado a outros materiais, os futuros em potencial são vastos e os desafios também.

As novas tecnologias do concreto irão possibilitar que a arquitetura cresça e se mantenha reinventando, e talvez seja esse o grande segredo desse material incrível: a capacidade de melhorar e se encaixar às demandas da nossa sociedade. Nosso desafio como arquitetos será sempre se adaptar e incorporar essa evolução em nossos projetos, explorando novas formas, ressignificando usos. E posso dizer com tranquilidade, desafio aceito! Mudar é nossa vocação.

Texto: Marina Dubal/ Barbara Campos Silva e Freitas

Foto: Henrique Queiroga

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