Biscoito e café: coisas de Minas

Em São Tiago, cidade a 220 quilômetros da capital, acontece uma feira que reúne pequenos produtores ao redor das quitandas mineiras mais tradicionais

Projeto Fartura | 05/04/2021

São Tiago é uma cidadezinha do interior de Minas Gerais, distante cerca de 220 quilômetros de Belo Horizonte, conhecida como a terra do biscoito. A fama vem de longe, dos tempos dos tropeiros. Ali era ponto de parada para aqueles que seguiam para o Centro-Oeste do país. Ao passar pelas fazendas, os moradores preparavam as famosas quitandas que serviam como moeda de troca para ingredientes ou produtos escassos da região. 

Alexandre Nunes, proprietário da fábrica de biscoitos Mineirisse, uma das mais tradicionais da cidade, conta que, quando conheceu São Tiago, foi orientado pela namorada a não comer muito nas casas que visitavam, porque em todas elas eram oferecidas café com biscoito, e recusar era considerado uma desfeita com os donos da casa. “Os biscoitos estão presente no dia a dia e nos momentos de festa, como casamentos. Até em velório, não falta quitanda”, diz.  

O carro-chefe da empresa é o famoso biscoito de polvilho. Tradicional nas fazendas mineiras, Nunes conta que buscou reproduzir a receita como era feita antigamente, escaldando o polvilho com banha de porco quente. Outros biscoitos tradicionais que têm origem nas fazendas também são produzidos na fábrica, como o biscoito de fubá, as rosquinhas trançadas à mão e o quebra-quebra. Ao todo são mais de 40 tipos, incluindo aí alguns especiais como os integrais e os sem açúcar. Todos os biscoitos são vendidos nas redondezas de São Tiago. O que vai para fora é levado por viajantes que compram para revender por conta própria.

No mercado há mais de 20 anos, Nunes conta que começou a produzir biscoitos com a esposa e mais dois funcionários. O primeiro passo para a criação da fábrica foi correr atrás dos cadernos de receitas das tias, avós, mães, da família e de amigos. “Analisamos as receitas e fazemos de um modo que elas possam ser viáveis na indústria, sem perder a tradição. Minha mãe e tias já vieram aqui na fábrica ensinar a fazer biscoito. Atualmente, são mais de 20 funcionários que dão conta da produção inteira.

TRADIÇÃO AMEAÇADA Nunes conta que o biscoito de polvilho era formatado em rodelas em magas de confeiteiro, processo manual feito pelas quitandeiras. Hoje, por questões de saúde – em função de movimentos repetitivos – as profissionais vem, aos poucos,  sendo substituídas por máquinas. Depois de darem o formato de argola, os quitutes entram direto nas mais de 70 assadeiras que vão para o forno todas de uma só vez. Os biscoitos são assados a 160 graus.  “O processo artesanal vai se perdendo dentro das indústrias, porque você precisa que seja rápido e a mão de obra de quem faz o artesanal é difícil. As enroladeiras, mulheres que fazem esse trabalho a mão, estão envelhecendo, e os mais novos não querem esse trabalho de enrolar rosquinha”, conta. Na Minerisse, o ofício tem sobrevivido ao passar do tempo e poucos biscoitos são feitos na máquina. “A maioria é manual. Ainda é. Mas dentro de uns dez anos, a gente não vai ter mais os biscoitos industriais sendo feitos de modo artesanal”.

A FESTA DO BISCOITO Nunes revela que a Festa do Café com Biscoito de São Tiago foi idealizada para todos saberem o que a cidade fazia de melhor. “São as quitandas. Foi pensado um evento onde as pessoas poderiam vir saboreá-las”, diz. A festa acontece do segundo final de semana de setembro. Os produtores tomam conta da Praça da Matriz com suas delícias. E os visitantes podem provar um pouquinho dos sabores de Minas em forma de rosquinhas, tranças…  

Foto: Fartura/ Divulgação

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