Big data ou bisbilhotice inútil?

A cautela precisa ser refinada, afinal, estaremos lidando com o petróleo.

Gustavo Versiani | 01/02/2021

Depois da LGPD, permitam-nos inferir no âmbito empresarial que há duas gamas de dados pessoais: os que se destinam ao chamado big data e os outros … aqueles que constituem mera bisbilhotice inútil.

Para calibrarmos a temperatura, LGPD e LGBT, além do trava língua, se parecem, mas não se confundem.

Assemelham-se na proporção de serem manifestações que buscam dar eficiência a dignidade da pessoa humana ….  em densidades distintas. Buscam preservar em última linha – ou melhor, em todas as linhas – a liberdade de opção, orientação e discernimento do indivíduo. Como diria Santo Agostinho, seria a materialização do livre-arbítrio.

Distanciam-se quando verificamos que a Lei Geral de Proteção de Dados – LGPD é uma norma escrita que busca proteger os dados pessoais dos seres humanos. Enquanto a sigla LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis, hoje ainda mais inclusiva sob a alcunha de LGBTQIAP+, segue seu movimento despido de norma e conscientizando gerações acerca da transposição de tabus.

Esclarecida a questão terminológica, vamos focar na proteção dos dados pessoais. E já para ilustrarmos por onde andam os nossos dados pessoais, na brincadeira do “Quem nunca?”, todas as respostas seriam somente uma se perguntássemos: Quem nunca, após realizar uma compra pela internet, começa a perceber em sua tela banners sobre produtos acessórios ao item adquirido? Resposta: todos nós recebemos!

Mas quem é o fofoqueiro que disse ao mercado que você adquiriu aquele produto? 

Acredite: você e seu dedinho nervoso que dá ok em tudo sem ler, aceita todas as políticas de privacidade e, ainda, insere dados pessoais em qualquer formulário que te enviam, alimentando um imenso e valioso banco de dados.

Segundo dizem, os dados pessoais constituem o novo petróleo. Mesmo após inúmeros vazamentos, edição de leis ao redor do mundo sobre o tema, e o interesse da indústria do streaming em divulgar vários filmes e documentários; o nosso dedo ainda continua ávido por clicar num ok. 

Se o ser humano precisa se reeducar sobre a forma de lidar com os seus dados, imaginem as empresas? A cautela precisa ser refinada, afinal, estaremos lidando com o petróleo.

Na lida dessa nova riqueza que são os dados, faltava um norte legal. Eis que, entre idas e vindas, encontra-se em vigor a Lei Geral de Proteção de Dados. As punições previstas nessa lei poderão ser aplicadas somente a partir do segundo semestre desse ano. Contudo, toda a lógica e estrutura de proteção de dados já está em pé.

Se a empresa menosprezar a coleta, armazenamento, tratamento e divulgação de dados de pessoas naturais (vulgarmente conhecidas como pessoas físicas) poderá arcar com pesadas consequências, desde abalo reputacional até multas e indenizações.

E se imaginarmos aqueles dados que se situam no núcleo duro da dignidade da pessoal humana, tais como orientação sexual, convicção religiosa e parâmetros de saúde; são tão sensíveis que merecem uma proteção diferenciada.

Enfim, depois da LGPD, sabatinar clientes com perguntas do tipo: Qual o mês do seu aniversário? Qual o seu mail? E o seu telefone? Tem redes sociais? (…) além de cafona, constituirá mera bisbilhotice inútil se a empresa não souber enquadrar esses dados nas bases legais.

Transformando essa malha de dados num big data, tem-se um estratégico gatilho de oportunidades. E não se deixem enganar, o consentimento do titular dos dados não pode ser tido como o remédio para tudo. Pode ser revogado ou expirar. O conhecimento do negócio e a real finalidade do dado é que devem direcionar aqueles profissionais que auxiliam as empresas nesse novo desafio.

Vale dizer que a massa de dados gerada pela bisbilhotice inútil terá somente um destino: vazamento! Se o dado está esquecido, desorganizado, sem base legal e não tem qualquer utilidade, desapegue!

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