Arquitetura: serviço essencial?

Retrospectiva do caos: como nossa profissão respondeu a pandemia

Marina Dubal | 21/12/2020

A pandemia ameaçou nosso modo de viver. Desafiou a maneira como habitamos nossas casas, edifícios, como nos movimentamos através dos espaços. As cidades compactas atendem uma demanda real de nossa geração. Uma solução sustentável, pois evita trânsito, promove interação, energia social, dinamismo, e evita os problemas ambientais de transporte e poluição. As cidades estão cada vez mais densas e conectadas.

A estabilidade social exige da vida urbana integração e não isolamento. Agora o simples ato de andar de elevador, um espaço de confinamento, precisava ser repensado. E nós, seres tão sociais (ainda mais como brasileiros) vimos que a solução, antes sustentável, não se sustentou quando o inimigo chegou invisível e desafiando a maneira com que ocupamos os espaços. E nossa profissão chegava numa encruzilhada: seria necessário respostas rápidas e pontuais para mudar ambientes em que agora não nos sentimos mais seguros ou seria esse um momento de reformulação? A pandemia criou uma oportunidade para melhorar as experiências de nossas cidades e nossas casas?

O vírus se espalhou, e com ele nossas incertezas. Nós arquitetos, assim como muitos outros profissionais, nos encontramos fechados em nossas casas, inquietos a respeito do futuro. Como a pandemia iria nos afetar? Qual o nosso papel nesse momento tão intenso? A arquitetura é uma atividade intensamente prática e ao mesmo tempo teórica. E a repentina explosão aparentemente caótica das respostas à pandemia refletiu como nossa formação é dinâmica e pensa de forma coletiva. Mas para entender, vamos voltar uns meses, numa retrospectiva desse ano sob o olhar atento de nossa profissão.

Retrospectiva

A pandemia mostrou o quanto nossas certezas são efêmeras. Elas rapidamente viraram dúvidas. A confiança deu lugar a hesitação. A vida ficou diferente e acredito que tenha acontecido com a maioria das profissões. Mas nós somos experts apenas de nossa própria realidade. Vou falar então do que vivi, que foram as mudanças no mercado de arquitetura. Para nós, como a todos, março trouxe desalento. Quem iria reformar numa pandemia? Que funcionem apenas os serviços essenciais! Arquitetura é essencial? Não sabíamos responder. Em meio a corridas para estocar papel, trabalho remoto, reclusão, qual era o lugar da arquitetura? A pandemia nos deu a resposta. Sim, somos essenciais. Acredito que nem nós sabíamos dessa resposta antes de vivenciá-la.

Pare entender é preciso falar de permanência. Num mundo antes inquieto, dinâmico, foi nos dada a tarefa de permanecer. Em casa. Casa! Essa provavelmente foi uma das palavras mais escritas, faladas, pensadas da pandemia. Casa. Nosso lar virou nosso único palco. E não é a arquitetura senão o palco do nosso cotidiano? As nossas cidades são o palco de nossas vidas. E esse palco antes gigante foi reduzido aos metros quadrados de nossas casas. Casa. E com a permanência veio a inquietude de encarar as inadequações de nossos próprios espaços. Algumas inequações eram antigas, que insistíamos em “empurrar com a barriga”. Algumas completamente novas. Home office. Sapato dentro ou fora? Desinfecção. Escola dentro de casa, trabalho dentro de casa. Conviver virou um desafio quando nossas casas não nos atendiam verdadeiramente.

As semanas de isolamento se tornaram meses. E essas desarmonias que passavam despercebidas se tornaram grandes problemas. E criou-se uma certeza: da importância da arquitetura de qualidade em nossas vidas. Como sabemos? Fomos breves em nos adaptar. O escritório físico deu lugar ao virtual. Para reuniões, zoom, meet, Skype. E como faz projeto? Online! Não foi demorado para que as incertezas de março dessem lugar a algo completamente inesperado: projetos. As pessoas queriam mudar. Elas mais que queriam, precisavam. E a incerteza deu lugar a um fluxo de projetos maior do que estávamos habituados. Nos pegou de surpresa. Antes preocupados em nossa área ser deixada de lado, vimos acontecer o contrário. As casas ganhavam os holofotes e nossa preocupação mudou: dar conta da alta demanda, de forma eficiente e a novidade: online. Não só os projetos chegaram numerosos, mas tinham urgência. Nós passamos grande parte de nossas vidas dentro de nossos lares, e mesmo assim muitas vezes nossa casa é deixada de lado. Mas agora não tinha mais escape. Nossas casas passaram a nos encarar. E a nos cobrar. Luxo é ter bem estar. E famílias pediam socorro.

Desde os primórdios de nossa existência nós adaptamos o ambiente a nossa volta às nossas necessidades. Arquitetura é uma profissão antiga! Nosso primeiro representante: Imhotep, egípcio, construiu a primeira pirâmide. Ele não foi provavelmente o primeiro arquiteto da história, mas é o primeiro que foi reconhecido como tal. Mas a verdade é que nós transformamos nossos ambientes desde o tempo das cavernas e por isso as cidades são consideradas por muitos a maior invenção da humanidade. E apesar das dificuldades elas permitiram a humanidade crescer e evoluir. Quase tudo em nossas vidas (tão urbanas) acontecem em ambientes construídos e planejados por nós. Se ficamos doentes, hospitais. Eles têm sido vitais e são palco e abrigo para os profissionais incansáveis, heróis dessa pandemia: os profissionais de saúde. O curar tem lugar. Tudo tem lugar. Para trabalhar, escritórios. Para lazer, teatro, cinema, restaurante. Para criar oficinas. Para produzir, fábricas. Para a ciência, laboratórios. Mas uma construção só faz sentido quando habitada, seja em presença, seja pelo olhar. O mundo se transforma, mas sempre permanece a necessidade intrínseca do homem de transformar seu espaço. E assim a arquitetura, tão antiga, permanece atual. E segue se reinventando. Permanecer. Espaço. Estamos transformando bem nossos espaços? As nossas cidades e edifícios hoje acompanham as necessidades da sociedade? Por que subitamente nossas casas não nos atendem mais? Porque provavelmente não atendiam antes. E o que mudou? Provavelmente a percepção individual.

Foi um ano árduo para todos. Mas cada pessoa, cada área teve impactos diferentes em seu cotidiano. Para nós arquitetos e designers, além da carga aumentada, o desafio foi adotar um formato híbrido. Mudavam-se os processos, as conexões, era hora de adaptar. Mas tínhamos em nós uma grande vantagem: nossa própria formação. Pois somos especialistas em sermos generalistas. Da maçaneta de uma porta a uma grande infraestrutura, navegamos entre o amplo e o específico com habilidade. Transitamos entre humanas e exatas, incorporando conhecimentos variados e dinâmicos. Quem cursou arquitetura sabe do que falo. História, filosofia, estrutura, materiais, interiores, iluminação, orçamento, patrimônio, paisagismo, conforto, estética. A lista é longa e coerente com nossa missão de trazer poesia ao caos. Todo projeto se inicia com número enorme de variáveis e informações. Não há “tela em branco”. É um mito pensar que cada projeto se inicia do nada. Ele começa com os desejos de um cliente e transborda em possibilidades e limitações. Cabe a nós sermos gerentes do caos, transformar, organizar e criar algo que concretize sonhos. Projetar com qualidade é nosso propósito, nosso lugar no mundo.

A pandemia trouxe o caos. Mas nós soubemos nos reinventar pelo simples fato de que reinventar para nós é cotidiano. Escolhemos uma profissão que não para. Ela é dinâmica, se transforma, atualiza e exige de nós resiliência. Ter que se adaptar em tamanha rapidez foi sim desafiador. Mas quando optamos por essa profissão tão bonita e transformadora abraçamos uma vida de desafios. Com criatividade, com paciência, determinação e muita humanidade. Humanidade porque, apesar de ser uma profissão extremamente técnica, ela é centrada no indivíduo. Em você cliente. Em você que habita. Em nós. E foi preciso uma pandemia para entendermos que “conectar tem a ver com pessoas”. A forma como criamos sempre vai mudar e evoluir. A tecnologia constantemente nos faz reinventar. E tentamos fazer com que tecnologia e propósito se encontrassem. O resultado? Revelador. Revelou que crises, mesmo com suas enormes dificuldades, são portas para um mundo novo. Um mundo melhor? Esperamos que sim. A ruptura existe. E ela nos oferece hoje a chance de repensar.

DESIGN DESRUPTIVO

Toda crise pode ser uma ruptura. E com ela vem a inovação. Mudar traz insegurança e 2020 veio trazendo desordem. Mas os anos passam, pandemias se transformam em novos problemas, desordens se ordenam, surgem novos desafios. Mas o caos traz consigo aprendizados perante os desafios, que é o que nos faz sermos melhores, nos fazem evoluir. Que os arquitetos e designers se encorajem pela crescente percepção de que vivemos um momento de transformação. Nossas vidas pedem um novo olhar para um novo morar. A pandemia acelerou um futuro que talvez seria inevitável. E qual será o futuro das nossas moradias? Talvez um assunto para a próxima coluna? Me diga você.

Um pouco mais “pé no chão”, vamos já pensar por enquanto no que 2021 nos proporcionará. A pandemia trouxe com ela novas tendências? Acredito que sim. Para o próximo ano muitas pautas devem mudar. E muita novidade veio para ficar. E nós, profissionais inovadores em nosso cerne, estaremos atentos a elas. Vamos a um top 5 para ficar de olho?

TENDÊNCIAS PARA FICAR LIGADO EM 2021:

  • Free Style: Na livre tradução, estilo livre, ela valoriza a mistura de objetos, novas combinações e texturas. São possibilidades infinitas, desprendidas de um “estilo” pré-definido. As novas combinações devem estar super conectadas e centradas no consumidor. De uma certa forma isso já era um conceito amplamente aplicado por nós a muitos anos. Sempre prezamos pela originalidade sem perder a “cara” do cliente em cada projeto. Essa tendência agora tende a crescer e se estabelecer. O que nos deixa muito contentes! Mas junto dessa tendência vemos também o crescimento do minimalismo. O consumidor começa a indagar por que precisa de tantas coisas. Existe uma nova consciência sobre consumo e este cada vez mais será atrelado a valor.
  • Hibridismo, Compartilhamento e Biofilia: Ambientes híbridos para alcançar a demanda de uma maior adaptabilidade em nossas casas. Com mais possibilidades de uso, esse tipo de ambiente deve começar a fazer parte de nosso cotidiano. A cultura do Compartilhamento desfaz um pouco a ideia de posse e mais voltada em usufruir. Aluguel compartilhado, airbnb, uber, aluguel de móveis e eletrodomésticos. Já a crescente necessidade de um maior contato com a natureza trouxe o Design biofílico para o centro dos debates. O projetar daqui para frente deve levar em consideração nossa necessidade humana de se integrar ao natural, e os imóveis que propiciarem essa conexão serão valorizados. Varandas passarão a ser um ‘must have’, já que as pessoas passaram a sentir a necessidade de se conectar mais com o exterior. Não necessariamente construir a partir do design biofílico, mas adaptar o layout das nossas casas para abrigar mais a natureza.
  • Design de emoções: O habitar agora vem carregado de sentimento e empatia. As novas gerações sentem a necessidade de se conectar com o ambiente em que vivem e a pandemia só reforçou essa tendência. Os futuros consumidores de arquitetura e design serão mais exigentes! Para conquistá-los será necessário empatia genuína. A palavra será: Conectar.
  • . Rest and Play: é olhar a casa como local de múltiplas experiências. Ela é lugar de repouso, de exercitar, divertir, trabalhar. Novos ambientes podem surgir. A princípio a Genkan, famosa técnica japonesa de reservar uma área na entrada da casa para isolar sapatos e compras, vai ser cada vez mais normal. A tendência é o surgimento de novos espaços para atender as famílias que passam mais tempo em casa. Local para leitura, yoga, limpeza, esses espaços surgirão de acordo com as necessidades individuais dos moradores.
  • Design para a saúde: Essa tendência se relaciona com a extrema preocupação com a higiene dos ambientes, que vai desde os materiais empregados até os fluxos de entrada e saída da casa, escritório, processos de higienização. Também inclui uma maior preocupação com fatores como ventilação, iluminação e conforto ambiental.

O ano de 2020 certamente ficará na memória. Apesar de nossa vida, em muitos aspectos, andou em ritmo lento com o isolamento e tantas restrições, pode-se dizer que nossa relação com a essência do nosso entorno mudou. Não somente no que diz respeito à qualidade do ambiente, relação com seu contexto na cidade, mas sobretudo com relação à dinâmica dos ambientes que habitamos. É preciso agora, mais do que nunca, pensar na “casa” como uma unidade completa. E quando pensamos em completo, devemos considerar todos os aspectos e necessidades que envolvem a rotina de cada um de nós adultos, crianças, idosos, bichos de estimação. Há muito se discute sobre o futuro fim da necessidade da propriedade para as futuras gerações. Seja do carro que nos possibilita deslocar, ou da casa que vamos habitar. O momento atual nos conectou com algo que muitos deixavam de lado – como nosso lar é uma extensão de nós mesmos. E ao perceber o valor do simples e a essência das pequenas coisas.

Fontes:
https://www.terra.com.br/noticias/coronavirus/a-pandemia-nos-mostra-qual-podera-ser-o-futuro-daarquitetura,abf16ca2e99b782e8a8012784c523bc8fv8mbwot.html
https://blog.fimma.com.br/macrotendencias-de-arquitetura-e-design-de-interiores-para-2019/
http://tabulla.co/covid-e-interiores-o-que-vem-por-ai/