Aprendendo a confiar novamente

Pesquisas sugerem que um relacionamento mais seguro estimula a mulher e o homem a produzirem mais “hormônio do amor”.

Cristina Santos | 18/11/2021

O que vocês achariam pior, um casamento infeliz ou uma vida isolada e solitária? Isso pode parecer uma questão um pouco sem sentido, mas acho pertinente, porque nas minhas observações e investigações percebi que não raro as pessoas ficam em um casamento ou relacionamento ruim para evitar a solidão.

Outras preferem responder a traição deixando o cônjuge e jurando nunca mais ter ninguém em sua vida. Às vezes dizem: “prefiro ficar sozinha, pois assim não corro o risco da traição”. O problema é que essas duas reações à traição não são saudáveis. Não são “apenas” emocionalmente e psicologicamente nocivas, mas quero dizer que são extremamente destrutivas.

As provas são devastadoras e claras. Casais em relacionamentos de baixa confiança têm taxas mais altas em separação. Essa correlação ficou comprovada, graças a uma análise adicional a um estudo de 20 anos com casais em relacionamentos de longo tempo, que foi realizado por Robert Levenson, Laura Carstensen e John Gottman.

Foi notado que casais em relacionamentos de soma zero largavam o estudo com mais frequência do que os outros. Eram casais que se tratavam como adversários durante os trabalhos em “discussão de conflito”. 

A taxa alta de abandono não surpreendeu os pesquisadores, pois deve ter sido desagradável para esses casais participar – ou se separaram e não queriam nem entender o que aconteceu.

Uma quantidade cada vez maior de pesquisas sugere que um relacionamento de confiança plena estimula a mulher e o homem a produzirem mais oxitocina, muitas vezes chamada de “hormônio do amor”, por ser associada ao laço entre casais, ‘a ligação materna e a um efeito calmante em nossa fisiologia.

Sendo assim, o hormônio nos protege de reações de estresse que comprometem a saúde. O papel da oxitocina (e da vasopressina no homem) é mais uma prova de como nossos relacionamentos influenciam nossa fisiologia.

Não há estatística confiável sobre a porcentagem de pessoas que se descrevem como solitárias, nem sobre o motivo que faz com que resistam a dar fim ao isolamento. Mas sabemos que as pessoas que permanecem sozinhas por um longo período apresentam características em comum.

Em alguns casos, aceitam um tratamento injusto para serem queridas; em outros, reagem com extrema desconfiança diante de pessoas que, na verdade, são confiáveis. Considerando que acham que serão traídas, rejeitam parceiros em potencial antes que qualquer conexão possa acontecer. O isolamento é o resultado, mesmo que não seja isso que realmente desejam.

É compreensível ter medo de relacionamentos se vocês não acham que conseguem distinguir em quem confiar, principalmente se têm pelo menos um relacionamento tóxico vivenciado como “prova”. Se estão passando por esse problema quero enfatizar a importância de trabalhar para melhorar a sua habilidade de reconhecer quando outra pessoa é confiável. Pesquisas indicam que, sem intervenção, a solidão não diminui com o tempo. E, como já vimos, provavelmente vai afetar a saúde de vocês.

No final das contas, a confiança requer um risco. Mesmo que para se recuperar de uma traição.  Se vocês ficarem vulneráveis perante outra pessoa, nunca há uma garantia de que não vão se machucar.

Mas na maioria das vezes vale a pena. Vale a pena apostar na vida a dois como modo de conquistas, movimento, afetividade, parceria de vida, crescimento, sentir o amor.

Não há garantias, mas acredito que mesmo assim, vale a pena, mesmo que seja por uma vez.  

www.cristinasantospsicologa.com

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