A mudança de roupa

A prece é sempre uma boa alternativa. Devemos sempre orar e nos lembrar com carinho daqueles que já partiram para a vida espiritual.

Carlos Malab | 15/07/2021

Coluna Carlos Malab

Chovia na cidade já por alguns dias e pela grande janela da casa de Vovó Angel podia-se ver as gotas que vinham do céu, trazendo uma água abençoada.
 
Já estavam todos reunidos para os comentários noturnos quando Mateus, que tinha oito anos, e era o mais impressionável da casa, perguntou:

– Vovó Angel, os fantasmas existem? Joana me disse que já viu um!

Vovó Angel lembrou-se do episódio a que Mateus se referia. Tratava-se de uma visão que Joana tivera na semana anterior, de uma senhora parada no corredor da casa, vestida com uma túnica branca esvoaçante e segurando um candelabro. Ela sabia que tais fatos eram normais e que crianças até os catorze anos viam os espíritos – não sabia explicar o porquê – com mais facilidade.

– Mateus, meu anjo, – disse Vovó Angel – os fantasmas de que você ouviu falar nada mais são que espíritos que algumas pessoas conseguem enxergar, ouvir ou sentir. Você sabia que todos nós somos espíritos?

Ao que ele respondeu:

– Não sabia, Vovó!

Vovó Angel continuou:

– Pois bem: quando estamos vivos na Terra, dizemos que somos “espírito encarnado.” Quando deixamos esta vida, passamos a ser chamados de “espírito desencarnado.” É como se mudássemos de roupa. Contudo, o espírito continua o mesmo ao passar para a vida espiritual, retornando à nossa verdadeira pátria, de onde viemos. Todos nós passaremos, mais cedo ou mais tarde, por essa transição.

– Vovó Angel, – disse Joana, curiosa – se eu vir um espírito novamente, o que eu faço?

– Faça uma prece – falou Pedrinho, ligeiro.

– Muito bem, Pedrinho – retornou Vovó Angel. – A prece é sempre uma boa alternativa. Devemos sempre orar e nos lembrar com carinho daqueles que já partiram para a vida espiritual.

Lari e Tião estavam doidos para entrar na conversa, mas foi Cristina, a loirinha de seis anos, cabelos curtos e ondulados, e a mais sapeca do grupo, quem falou, choramingando:

– Vovó Angel, eu tenho medo dos espíritos.

– Medo, Cris? Por que? – interrogou Vovó Angel, reparando nos olhinhos temerosos da pequenina.

– O Tião me disse – respondeu Cris – que se eu não me comportar os espíritos vêm puxar a minha perna de noite, na cama.

Vovó Angel refletiu por um instante e sentiu que a reação de Cris era a mesma de muitos adultos, que também tinham, por ignorância, medo dos espíritos. Sabia, por experiência, que os espíritos podem ser bons ou maus, como os próprios seres humanos, mas que eles só agem no espaço que damos pelas nossas ações e pensamentos.

Tião havia baixado os olhos, envergonhado. Vovó Angel, notando que ele estava arrependido, e não querendo importuná-lo, respondeu à Cris:

– Cris, minha linda, não se impressione. Os espíritos somente nos prejudicam, ou ajudam, se deixarmos. Nenhum espírito vai lhe puxar as pernas.

Como todas as crianças estavam cansadas, mas o assunto despertava muito interesse, Vovó Angel propôs chamar o Sr. Joaquim para explicar, no momento oportuno, como era possível ver, ouvir e obter mensagens dos espíritos. Vovó Angel disse às crianças que havia assistido a uma palestra dele, muito interessante, sobre a mediunidade e que certamente ele esclareceria muitas dúvidas.

A hora da prece chegara. Como era a noite da Cris ela orou assim:

– Papai do Céu querido, ajude a todos nós aqui em casa, na rua e na escola. Obrigada.

Todos foram para as suas camas e Vovó Angel apagou as luzes.

Na casa só se escutava o barulho das gotas de chuva nas folhas das árvores do jardim.

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Fonte: MALAB, Carlos Henrique da Silva. Era uma vez para sempre. Pelo espírito Blandina. Belo Horizonte: Vinha de Luz Editora, 2007. p. 21-25.

Ilustração: Acervo iconográfico da Vinha de Luz Editora da Casa de Chico Xavier de Pedro Leopoldo

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