A fé é o porto seguro de todos nós

O Cidade Conecta preparou lançamentos, periódicos, com uma série de escritos sobre Barnabé, um dos primeiros trabalhadores que se agregaram integralmente à causa cristã. Confira os textos da coluna sobre Barnabé assinada por Carlos Malab.

Carlos Malab | 22/12/2020

Uma tempestade inesperada chegou na cidade de Antioquia, trazendo grande destruição e dor. Era um fenômeno raro, nem mesmo os mais velhos tinham lembrança de um evento com tal intensidade.

O rio Orontes havia transbordado e a água invadira parte do centro da cidade, bem como os bairros mais pobres.

Os moradores abastados e os da classe alta romana não foram atingidos em suas casas, mas tinham dificuldade em se movimentar livremente. Os soldados foram postos em alerta pelo governador para evitar saques e violência. 

Neste ambiente de dor e agitação, vamos encontrar a casa cristã em plena atividade de socorro. O local onde ela se situava não fora atingido diretamente, mas a construção sofrera alguns abalos. Atendendo as necessidades de trabalho, os voluntários foram divididos entre as atividades de reparo emergencial e o atendimento aos feridos e desamparados de toda a sorte.

Barnabé, como sempre, atendia a todos com a maior presteza e atenção.

Uma senhora, que chorava copiosamente, vendo-o aproximar-se, disse:

-Irmão, o que será de mim agora? Perdi tudo, minha casa está cheia de lama. Tudo o que fiz com muito trabalho, agora, está destruído. Por que Deus permite que isto ocorra? Isto não é justo. Deus não está sendo bom comigo. O que será que fiz de errado para ser punida desta forma? O que será da minha vida agora?

O incansável trabalhador tudo escutava com atenção e paciência, mas quando a senhora falou de Deus, em tom de cobrança, ele não hesitou e, com voz serena e firme, afirmou:

O que é isso minha irmã? Nunca diga que Deus não é bom. A irmã não está aqui sã e salva? Existe bem mais precioso que a nossa vida e a nossa saúde? Não blasfeme! A ingratidão é um dos atos mais feios que um ser pode ter. Deus é justo e bom. Podemos colocar nele a culpa da imprevidência humana? Nós vamos te acudir. Confia, tenha fé. A perda material pode ser reposta e os problemas resolvidos. Paciência, trabalho e persistência levam-nos a conquistar tudo o que necessitamos, muitas vezes, num nível melhor e renovado. A irmã já pensou naqueles que, além de perderem a casa, sentem agora a falta de algum familiar ou ente querido? Vamos seguindo em frente, nos apoiando uns nos outros. O Pai está sempre nos ajudando, disso a irmã não deve ter dúvida.

A senhora acalmou-se, sentindo a atenção de que era objeto. Entendeu e aceitou as palavras de consolo e ânimo que recebia. 

Barnabé abraçou-a e deixou-a sob os cuidados de uma trabalhadora da casa, para receber roupas secas e ser alimentada. 

Realmente, pensou consigo mesmo, o quadro era desolador. Tanto sofrimento, ao mesmo tempo, não o deixava esquecer o quanto o homem é fraco perante os fenômenos da natureza. De que adiantava o nosso orgulho, vaidade e egoísmo se estamos todos sujeitos a vicissitudes que não conseguimos evitar? 

Continuando a andar pela casa, viu um homem que estava sentado junto à entrada do salão de estudos, calado e olhando fixamente para o chão. Transparecia muita tristeza.

-Meu irmão, o que o aflige? Em que posso ser útil?

-Estou muito apreensivo, irmão. Sou viúvo e meu único filho trabalha no mercado baixo. Toda a área onde ele transita foi fortemente alagada. Dizem que o rio subiu muito rápido, tal foi o volume de água da chuva. Surpreendeu todos. Temo pelo meu rapaz. Estou desolado, sem notícias dele, pedindo a Deus que o proteja. Não sei o que fazer e a quem pedir providências. 

Barnabé ficou condoído com o drama daquele homem e disse:

-Vamos orar meu irmão, Deus está acima de tudo, sabe o que necessitamos e nunca nos abandona. Amanhã, irei com o irmão procurar o seu filho. Não podemos desanimar. Temos que redobrar as nossas forças nestes momentos. Jesus concita-nos a exercitarmos a nossa fé. Já estudamos aqui que o nosso Mestre Jesus com seus discípulos enfrentaram, no mar da Galileia, uma tempestade tão forte que o barco, onde se encontravam, ficou sob o perigo de afundar. Os discípulos, temerosos, o acordaram. Ele, então, acalmou a tempestade, e ensinou que a fé é o porto seguro de todos nós. (1)

O homem ouviu atento o ensinamento e agradeceu emocionado as palavras de apoio.

Barnabé continuou a atender e notou, perto de onde estava, uma jovem com uma menina no colo, que aparentava ter em torno de seis anos de idade. As lágrimas desciam das faces da senhora enquanto alimentava a criança. Aproximou-se dela e com o coração condoído perguntou:

-O que se passa, minha irmã? Porque você chora tanto? 

-Irmão, perdi nessa enchente a minha sogra. Ela era como uma mãe para mim. Vi quando a enxurrada a levou de nós, inesperadamente. Fomos atingidas por esta tragédia, enquanto conversávamos. Eu e minha filha conseguimos salvar-nos. Agradeço todo o suporte e auxílio desta casa. Tenho fé de que Deus está amparando em seus braços a minha querida mãezinha, mas só queria despedir-me dela uma última vez. Meu marido é comerciante e está fora em uma caravana. Não sei como avisá-lo. O choque dele será grande. Que fazer, irmão?

-Vamos auxiliá-la, temos amigos que conhecem os caminhos das caravanas. Pediremos que transmitam a notícia para tentar avisar seu marido. Considere-se aqui em sua casa.  Não lhe faltará o amparo. Jesus ensinou-nos que somos todos irmãos e temos de nos auxiliar mutuamente. Vamos orar, minha irmã, pela sua família. Tenha certeza de que sua sogra está sendo assistida pelos anjos do Senhor.

A igreja de Antioquia estava repleta de pessoas vivenciando as mais diversas perdas e dores. Seu ambiente transbordava de real fraternidade e desprendimento para socorro ao próximo. Assemelhava-se a uma colmeia silvestre que, mesmo atacada e danificada fisicamente, não deixava de produzir o mel da vida.

Barnabé estava preocupado com as provisões de alimentos. Perguntava-se como poderiam alimentar tanta gente? A possibilidade de não ter como sustentar os desalojados, os doentes e as crianças doía fundo em seu coração. Pensou em pedir apoio a Pedro na igreja de Jerusalém, mas eles também passavam por dificuldades. O que fazer? Decidiu recolher-se, por breves instantes, no recinto usado para guardar os mantimentos e outras doações, e orar. A noite já ia avançada e, muito cansado, assentou-se e encostou a cabeça na parede rústica. Pareceu que adormecia, mas, ao mesmo tempo, sentia-se consciente. Perguntou a si mesmo se estaria sonhando. Viu então um vulto luminoso diante dele que lhe disse: 

-Filho, vocês não estão sozinhos e desamparados, tenha fé. Vá, amanhã bem cedo, ao mercado e peça contribuição.

No torpor que sentia, voltou-se para o ser luminoso e perguntou:

-Anjo bom, qual o seu nome? A quem devo pedir?

Não teve resposta, sentiu imensa paz vendo a imagem desaparecer. Para ele, tudo havia ocorrido muito rápido. Quando abriu os olhos percebeu que já havia amanhecido. Levantou-se lentamente e, sem ser notado, saiu em direção ao mercado velho. A destruição era grande. Não via ninguém nas ruas, ainda alagadas em muitos pontos. Quando chegou próximo do mercado, viu um grego bem vestido com alguns ajudantes, e deduziu serem seus servos. Aparentavam cansaço e carregavam uma pequena liteira.

Barnabé, sem compreender o que ocorria, dirigiu-se ao homem, lembrando-se das recomendações que recebera em sonho:

-Bom dia, meu senhor, estamos abrigando famílias desabrigadas pela tragédia do temporal que aqui se abateu. Procuro auxílio para atender necessidades múltiplas e imediatas. O senhor conhece alguém que possa contribuir?

-Por Zeus, você foi enviado aqui pelos Deuses. Sou grego e estou na cidade em atividades comerciais de câmbio. Meu filho perdeu-se durante o temporal. Vim com meus servos resgatá-lo. Passamos a noite à procura dele, de casa em casa. Já sem esperanças, prometi ao Deus dos Deuses que, se encontrasse meu filho com vida, daria uma bolsa recheada ao primeiro que aparecesse me pedindo ajuda.

O grego deu um abraço emocionado a Barnabé e depositou em suas mãos uma pequena sacola cheia de moedas dizendo:

-Toma meu amigo estas moedas, pois pela glória dos Deuses encontrei meu filho Tápias vivo e são.

Feito isso, despediu-se e saiu célere com seus servos e a liteira.

Barnabé tentou saber o seu nome, mas foi em vão. Tudo foi muito rápido. Muito emocionado, ajoelhou-se ali mesmo e orou agradecendo a Deus e a Jesus pela dádiva recebida. 

Após a oração, com a face repleta de lágrimas, retornou rápido para avisar os companheiros do ocorrido e tomar as providências de provimento urgente. 

No caminho, constatou consigo mesmo que, nas grandes adversidades, é visível o amparo Divino. 

O episódio inusitado só lhe reforçou a fé no poder da oração e de que para Deus nada é impossível. 

 (1) Mateus 8:23 a 27

Foto: Psicopictografia pela Médium Cleide – Espírito Berthe – Fraternidade Cristã Francisco de Assis (FECFAS).

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