A cidade inclusiva

Medellín se reinventou com uma verdadeira transformação urbana, ainda em curso, com foco na arquitetura

Bernardo Farkasvolgyi | 20/11/2020

Coluna. Há até pouco mais de uma década, nenhum estranho ousaria pisar na Comuna nº 13, que já foi o bairro mais perigoso de Medellín, a segunda maior cidade da Colômbia. Hoje, tanto o temido bairro, quanto a inteira cidade (por décadas símbolo de um famoso cartel do narcotráfico internacional), estão entre os roteiros turísticos mais interessantes da América do Sul. Lá, viajantes e curiosos podem desfrutar desde passeios para observar os célebres murais que atualmente colorem os percursos das periferias à experiência de chegar até as partes mais altas das encostas habitadas, subindo a bordo de extensas escadas rolantes instaladas a céu aberto. 

Estamos falando de um centro urbano complexo, que historicamente se desenvolveu ao longo de um vale em plena cordilheira dos Andes, tendo como características uma ocupação desordenada em suas partes mais altas e um passado recente extremamente marcado pela desigualdade social e, sobretudo, pela violência. O que Medellín fez para virar essa chave?

Bem… antes de mais nada, a cidade decidiu investir em arquitetura. Hoje, é referência mundial de uma transformação urbana (ainda em curso) que já pode ser comparada com a de Barcelona nos anos 1980. Quanto tudo teve início, há pouco mais de 15 anos, o objetivo da administração municipal era tornar Medellín mais acolhedora e inclusiva. A arquitetura foi a ferramenta de transformação: escolas, instalações esportivas, museus, bibliotecas, parques e transportes mudaram a sociedade e levaram os excluídos a se reconhecerem nessa mudança.

O eixo principal do projeto implementado pelo município consistia em realizar intervenções sociais, culturais e educacionais nas zonas mais desfavorecidas. Já estava claro para o poder municipal que a arquitetura seria fundamental, pois somente com ela – e com os melhores projetos implementados nos locais mais humildes – seria possível dar visibilidade à ideia de inclusão.

Sendo assim, e em conjunto com a população (que ajudou a definir onde as intervenções seriam cruciais), Medellín conseguiu mudar a percepção e a natureza de seus lugares mais sofridos. Um investimento que não teria apenas efeito pontual: mostrou-se uma poderosa ferramenta capaz de gerar bem-estar e oportunidades para a inteira metrópole.

As principais obras que permitiram esse salto social e turístico são diferentes e vão muito além de simples infraestruturas de transporte. Por exemplo, o metrô: perfeitamente limpo, com sistemas de vigilância em todas as estações, passou a ser integrado com bibliotecas e salas de concerto distribuídas no seu percurso. Para conectar os bairros mais pobres, que se localizam nas laterais do vale, foi construído um sistema de longas escadas rolantes externas e também uma rede de bondinhos, denominada Metrocable, que liga as áreas mais populares dos morros ao centro da cidade, sendo capaz de encurtar esse percurso em até duas horas.

Aliás, o Metrocable – que transporta cerca de 30 mil pessoas todos os dias, funcionando como um verdadeiro meio de transporte de massa com diversas linhas – tornou-se uma solução de referência, replicada em várias outras cidades do mundo. Ao longo de suas rotas também foram construídas bibliotecas e centros culturais. Em toda a cidade multiplicaram-se escolas, pontes e espaços de convívio, lazer e aprendizado.

Entre os projetos mais recentes (e ainda em fase de construção) está um grande parque linear ao longo do rio que corta Medellín. Por duas décadas, esse trecho da cidade foi ocupado por avenidas de trânsito rápido de veículos, representando uma barreira de pedestres quase intransponível e se transformando em uma das áreas urbanas consideradas mais poluídas e barulhentas. Um espaço que agora será devolvido à população no formato de um pulmão verde de atração social e turística, graças também a um conjunto de equipamentos para atividades recreativas e comerciais, entre eles um parque de diversões.

A força social deste verdadeiro corredor verde metropolitano de 70 mil metros quadrados torna-se ainda maior por seu caráter transversal: reforça as ligações pedonais entre o centro histórico da metrópole, o centro administrativo e bairros residenciais vizinhos. Ao longo do eixo do rio deverão surgir diferentes cenários culturais que irão enriquecer a qualidade do espaço público, além de oferecer locais para a prática esportiva. Quando as obras forem concluídas, serão 3,5 km de ciclovias e quase três mil novas árvores plantadas.

O que podemos aprender com Medellín?

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