42º Artigo de Martins Peralva

“Então Pedro, saindo dali, chorou amargamente.” — Do Evangelho

Da Redação | 02/09/2021

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O Cidade Conecta preparou lançamentos, periódicos, de artigos do escritor, expositor e articulista José Martins Peralva Sobrinho, ou simplesmente Martins Peralva, como era conhecido. Ele, que foi um dos grandes representantes do movimento espírita no Brasil, escreveu os seguintes livros: “Estudando a mediunidade”, “Estudando o Evangelho”, “O Pensamento de Emmanuel”, “Mediunidade e evolução”, editados pela Federação Espírita Brasileira (FEB), e “Mensageiros do bem”, editado pela UEM.

Os artigos publicados fazem parte do livro “Evangelho puro, puro Evangelho – Na direção do Infinito”. Trata-se uma coletânea de textos disponibilizados nos jornais “O Luzeiro”, periódico de sua terra natal, Sergipe, “Síntese” e “Estado de Minas”, ambos de Minas Gerais, e na revista “Reformador” da FEB. Geraldo Lemos Neto, responsável pelo Vinha de Luz — Serviço Editorial, foi quem coletou o material com a família Peralva, para que a comunidade espírita tivesse a oportunidade de conhecer mais de perto Martins Peralva.

A lágrima do apóstolo

Março | 1960

A negação de Pedro, naquela madrugada cujo silêncio um galo desconhecido perturbara com a melancolia do seu canto, constitui episódio de profunda relevância para a nossa experiência individual. Através da negação, aquele que se tornaria, mais tarde, o bondoso e tolerante apascentador das ovelhas cristãs, legou valioso ensinamento para os homens de todos os tempos e lugares, numa demonstração, irretorquível, de que, se cada árvore frutifica na estação própria, cada criatura respira, também, sob o ponto de vista espiritual, no clima que lhe é peculiar.

O acendrado amor e o ideal intensamente vivido  ocasionam, geralmente, afirmativas bem-intencionadas, é verdade, mas de execução difícil, ou mesmo impossível, nos momentos supremos. Têm razão, pois, como não podia deixar de ser, os elevados instrutores quando dizem que a posição ideal, no homem, é a do equilíbrio, da análise, da reflexão, confirmando, assim, a assertiva de que “a virtude está sempre no meio”.

O entusiasmo excessivo, especialmente no falar, no prometer aos homens e a Deus, sem a fiscalização do bom senso, afigura-se-nos tão prejudicial quanto o indiferentismo, que estimula, que favorece a estagnação, a inércia. Ninguém põe dúvida sobre o imenso, o profundo, o eterno amor de Pedro a Jesus. Quem ousaria, naquela época, quem ousará nos dias presentes?
O seu devotamento era tal que, assim dizia o generoso pescador, pelo Mestre iria “tanto para a prisão quanto para a morte”. Um grande e sincero amor compeliu-o a uma promessa àquele tempo irrealizável: dar a vida pelo Cristo! Contudo — oh, humana fraqueza!—, ao impulso do coração não correspondia, ainda, a fortaleza do espírito.

Conhecendo, embora, a lealdade do velho Cefas, perscrutara-lhe Jesus a alma, devassara-lhe o mundo interior, identificara-lhe a fragilidade de homem, que um grande amor insistia por suplantar. Daí o profético aviso do Cordeiro celeste que, logo após, se deixaria por imolar, no Calvário, à ignorância dos homens: “Afirmo-te, Pedro, que hoje negarás três vezes que me conheces, antes que o galo cante”. Quanta convicção, quanta certeza! Oh, divina presciência: “Afirmo-te, Pedro…”

Horas depois, quando o galo cantou, na mais triste madrugada que a sua alma generosa conheceria pelos séculos e milênios em fora, Pedro chorava amargamente, lembrando as palavras do Senhor. A sua promessa, livre, espontânea, não solicitada, deixara de concretizar-se. A realidade do homem desmentira o impulso verbal do idealista. O heroísmo da hora tranquila, na placidez e na poesia do Getsêmani, diluíra-se no ambiente sombrio, incerto, da casa do sumo sacerdote. O navegante das águas serenas fraquejara no mar alto, de ondas encrespadas.

Cruzar lagos tranquilos é facultado a muitos, dominar vigorosas procelas é privilégio de poucos. Preconizar gestos varonis, em circunstâncias normais, quando tudo corre bem, é sempre mais fácil do que testemunhar resignação e coragem quando a dor nos bate à porta, quando a dificuldade se instala em nosso caminho. A posição ideal, correta, magnífica, é, insofismavelmente, a do equilíbrio. Nem a super, nem a subestimação de nossas possibilidades, sob pena de, a exemplo do velho Barjonas, vertermos, acabrunhados, as lágrimas do arrependimento.
Tão profundo foi o remorso de Pedro que a lembrança daquela noite fria, inesquecida, em que dissera, diante de criadas vulgares, de soldados romanos e de servos do sumo sacerdote, não conhecer o Mestre, jamais se esvairia de sua memória. Tranformar-se-ia em agudo estilete. Ferir-lhe-ia o coração repetidas vezes. Magoar-lhe-ia a alma sensível por muito tempo.

Estranho, inconcebível, efetivamente, o contraste entre o prometido e o não realizado, entre a palavra e o ato. Ao entardecer, no horto: “Mestre, contigo irei até à morte!” De madrugada, em casa de Caifás: “Não conheço este homem!”

Pedro não reconhecer Jesus!… Logo Pedro!!!… Se fora Felipe ou Bartolomeu, Judas ou Tomé, ainda bem. Eram companheiros de menor evidência no colégio apostólico. Mas Pedro, que horas antes com ele estivera no Getsêmani, vendo-o em agonia, o suor transformado em sangue, caindo em gotas sobre a terra, ouvindo-o na angustiosa oração: “Pai, se queres, passa de mim esse cálice…”

Pedro, que decepara a orelha de Malco. Pedro, que amanhecia com Jesus, andava com Jesus, comia com Jesus…

A lição do irmão de André não se perdeu. Nem se perderá, por muitos séculos e milênios, enquanto um homem  pisar o chão da Terra. A fragilidade de Pedro-homem, a sua negação e o seu pranto amargo constituem oportuna advertência no sentido de que adotemos:
— por norma de vida a humildade,
— por juiz de nossos atos o bom senso,
— por orientadora de nossas palavras a reflexão.

Semelhante atitude deverá evitar sejamos surpreendidos, por nós mesmos, derramando a lágrima do apóstolo — a lágrima do arrependimento…

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Fonte: PERALVA SOBRINHO, José Martins; PERALVA, Basílio (Org.). Evangelho puro, puro Evangelho – Na direção do Infinito. Belo Horizonte: Vinha de Luz Editora, 2009. p. 129-131.

Nota da Editora: Reformador, março de 1960, p. 57. Reformador é uma revista de divulgação da Doutrina Espírita, editada mensalmente pela Federação Espírita Brasileira (FEB). É uma das mais antigas publicações de seu gênero, em circulação no Brasil (desde 1883, no formato original de jornal). Com a fundação da FEB, em 1884, o periódico foi por ela incorporado, passando a ser o seu principal órgão de divulgação, voltado para a difusão de artigos doutrinários, fatos e trabalhos desenvolvidos pela entidade, assim como pelas entidades afiliadas em todo o país. In: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Reformador>. Acesso em: 12 nov 2009.

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