2020 e o melhor projeto

Observar o passado e aprender com ele é a melhor alternativa para conceber o novo

Bernardo Farkasvolgyi | 14/12/2020

Não há como chegar ao final de um ano sem olhar para trás e tentar aprender. Ainda mais se o ano em questão for o de 2020. Observar o passado para ser capaz de projetar um futuro melhor – eu não poderia ter uma sugestão mais adequada para este momento. Em particular, porque o escritório do qual sou diretor acaba de receber uma premiação internacional por um projeto que faz exatamente isso: valoriza o passado, buscando nele as melhores respostas para conceber o novo.

A fundação britânica INTERNATIONAL PROPERTY AWARDS, em cerimônia realizada e transmitida diretamente de Londres em novembro, premiou a Farkasvölgyi Arquitetura pelo melhor projeto de arquitetura do Brasil na categoria “uso misto”. O projeto em questão é o Home Residence, um empreendimento localizado em Belo Horizonte que envolveu a construção de uma torre multiresidencial e o resgate da memória e do uso comercial de um conjunto de edificações da primeira metade do século XX, realizadas em estilo art déco regional. 

Com quase 50 anos de intensa atividade, tenho orgulho em dizer que a Farkasvölgyi Arquitetura conta com um portfólio sólido, amplo e extremamente variado. Nesse percurso, já nos deparamos inúmeras vezes com a possibilidade de realizar projetos envolvendo edificações tombadas pelo Patrimônio Histórico. Entre tantos, podemos citar o icônico edifício comercial Domani, na rua da Bahia, e o Villa Pisani, entre as ruas Sergipe e Bernardo Guimarães. Ambos devolveram ao cenário da capital mineira edificações com valor histórico reconhecido, revitalizadas e em situação de gentileza urbana. 

No projeto premiado este ano, a hipótese de restauração de três imóveis da Avenida Brasil nos entusiasmou a estudar um conceito integrado, cujo design pudesse dialogar profundamente com a arquitetura a ser recuperada. Queríamos comunicar e estabelecer vínculos com significados e valores materiais e imateriais, através de uma identificação e releitura iconográfica do estilo déco. Sendo assim, definimos que o novo edifício de apartamentos deveria obrigatoriamente trazer na essência de seu design elementos conceituais que permitissem uma conversa com as construções já existentes. 

Os projetos em art déco, historicamente, utilizavam-se de formas escalonadas, dando ênfase ao acesso principal; integrando formas geométricas, estruturavam-se por meio de uma composição volumétrica derivada da sobreposição de planos nos sentidos horizontal e vertical, imprimindo ritmo e movimento às composições. 

Entre as inspirações para o design contemporâneo do novo edifício, o ziguezague foi uma das principais combinações no uso de linhas retas; bem como a axialidade, que é um sistema de composição e distribuição a partir de um eixo de simetria. Também incluímos as varandas em balanço e a presença de luz e brilho nas fachadas, através do acabamento com vidros – todas características déco. 

Muitas vezes associado à indústria e à modernidade, em sua vertente streamlined, o art déco buscou nas primeiras décadas do século passado grande expressão através das formas aerodinâmicas. Esse conceito se evidencia no design do coroamento do projeto Home Residence. Do ponto de vista do pedestre, de frente à sua fachada principal e olhando para o alto, a sensação é de que o edifício se prepara para decolar… E na verdade decolou mesmo. Observando o empreendimento já construído, além de sua beleza e de agora ser um projeto com reconhecimento internacional conquistado, essa sinergia entre novo e antigo conferiu a ele e ao contexto urbano no qual está inserido um elevado valor agregado, sobretudo pelo forte conceito que fundamentou todo o seu processo de concepção arquitetônica.

Entrando nas minucias dessa atividade de criação, minha intenção foi justamente colocar em evidência o quanto o passado tem a nos ensinar, bem como a nos inspirar. Esse projeto nos dá a certeza de que é possível valorizar a memória e a narrativa da cultura e da história de Belo Horizonte, uitilizando-as como combustível para a evolução de uma cidade que continua a ganhar corpo, contornos, feições e, claro, identidade. 

Ao citar a premiação, sinto também que é preciso abrir um espaço de reflexão para a importância de nos colocarmos continuamente à prova. Buscar excelência e bons resultados, almejar fazer melhor, seja o que for, é sempre uma oportunidade de crescer, de tornar-se mais interessante, inteligente e resiliente. 

Aliás, nos colocar à prova foi exatamente o que o ano de 2020 fez. Que a gente possa compreendê-lo como uma oportunidade de buscarmos nosso “melhor projeto”, aquele que será premiado, que superará provas e bancas julgadoras, atenderá a todos os requisitos mais exigentes dos órgãos de competência, tornar-se-á melhor simplesmente porque não há outro caminho que não seja melhorar. Vocês entenderam que não estou falando apenas de arquitetura, não é de fato? 

Sendo assim (e como de costume), termino esta coluna deixando uma pergunta crucial: como poderemos usar da melhor maneira a experiência vivida este ano pra construir um futuro melhor?

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